Clipping Diário

24 | Março | 2025

INDA

Diário do Comércio - MG   24/03/2025

As importações de aço seguem avançando no mercado nacional e preocupam o setor siderúrgico no Brasil. Em fevereiro, 469 mil toneladas chegaram ao País: 5,1% a mais na comparação com o mesmo período de 2024.

No acumulado de janeiro e fevereiro, a alta é ainda mais expressiva, com desembarques que atingiram o patamar de 1,02 milhão de toneladas – um aumento de 25,6% com relação aos dois primeiros meses do ano passado. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Aço Brasil.

A preocupação é derivada da alta concorrência com produtos estrangeiros a preços competitivos, especialmente oriundos da China. Há décadas, o país asiático avança em exportações de aço com estimativas de comercializar entre 90 e 100 milhões de toneladas ainda neste ano.

De acordo com o Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), aumento das importações tem reduzido a participação das empresas distribuidoras de aços planos no Brasil. Entre 2000 e 2010, as vendas do insumo correspondiam por 86% do mercado, enquanto atualmente passaram a representar 73%.

Em consequência disso, empresas que atuam em Minas Gerais, como ArcelorMittal e Aperam, enfrentam suspensões de investimentos, redução no ritmo de produção, além de paralisações e demissão de funcionários. Projetos bilionários, como a expansão da usina em João Monlevade pela ArcelorMittal Brasil, que estava previsto para ser concluído em 2026, foram cancelados.

Esse cenário de retração levou as siderúrgicas a requisitarem medidas governamentais para conter a entrada de produtos siderúrgicos. Dentre as soluções apontadas como ideais para a preservação do mercado nacional, estão medidas antidumping, que visam coibir a entrada de produtos estrangeiros a preços extremamente reduzidos.

No ano passado, o governo federal implementou barreiras tarifárias contra o avanço do aço chinês. Embora a medida tenha sido considerada positiva, a ação ainda não surtiu efeitos esperados, uma vez que a entrada de produtos siderúrgicos continua registrando números recordes.

Produção de aço bruto cai 1,6% em fevereiro
Em fevereiro, a produção de aço bruto nacional somou 2,72 milhões de toneladas, uma queda de 1,6% em relação ao mesmo mês do ano passado. No acumulado bimestral, houve avanço de 0,9%, acumulando 5,53 milhões de toneladas, segundo levantamento do Instituto Aço Brasil.

No período, a produção de laminados longos cresceu 1,6% em fevereiro na comparação com o ano anterior, acumulando no bimestre expansão de 1,9%. Em planos, a produção cresceu 0,2% no mês passado, mas acumulou nos dois primeiros meses do ano uma queda de 1,5%.

Já as vendas no mercado interno avançaram 6,6% nos primeiros dois meses deste ano. O segmento de aços planos registrou um crescimento de 7,8%, enquanto os aços longos apresentaram alta de 6,3%. Por outro lado, as vendas de semi-acabados registraram uma queda significativa de 26,5%.

SIDERURGIA

Valor - SP   24/03/2025

A siderúrgica brasileira Aço Verde do Brasil (AVB) encerrou o ano passado com crescimento nas vendas e na receita líquida, segundo o relatório anual divulgado nesta sexta-feira (21)

Apesar de um cenário preocupante para o setor siderúrgico no Brasil com a entrada de aço chinês e novas tarifas impostas pelo governo americano, a siderúrgica brasileira Aço Verde do Brasil (AVB) encerrou 2024 com crescimento nas vendas e na receita líquida, segundo o relatório anual divulgado pela empresa nesta sexta-feira (21).

Ao Valor, a presidente da empresa, Silvia Nascimento, e o diretor financeiro e de relações com investidores, Gustavo Rozenbaum Bcheche, frisam que a companhia conseguiu crescer em meio a um ambiente de preços deprimidos e concorrência agressiva do aço chinês.

Apesar da pressão externa, a AVB manteve um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado de R$ 558,4 milhões, com margem de 30,3%, e encerrou o ano com lucro líquido de R$ 234,8 milhões, elevação de 15,9% em relação a 2023.

A concorrência com o aço chinês — mais barato, subsidiado e com excedente de produção — tem sido um dos principais desafios para as siderúrgicas brasileiras. Os executivos frisam que a empresa tem buscado mitigar os impactos com investimentos em produtividade e sustentabilidade, mas o excesso de oferta asiática é sentido nos resultados operacionais.

“Tivemos um ano de 2024 muito mais desafiador do que o planejado, apesar disso, buscamos produtividade e efetividade na redução de custos e melhoria na utilização de resíduos, o que resultou em um ano que fechou com um resultado melhor do que 2023”, disse Bcheche.

Cautela para 2025

Se por um lado a AVB se destacou por melhorias na operação, por outro enfrenta uma batalha comercial que vai além de suas fronteiras — e cujos desdobramentos, inclusive políticos, podem afetar diretamente seu desempenho e o do setor em 2025.

O executivo acrescenta que o sistema híbrido de cotas e tarifa implementado em junho pelo governo para conter a “invasão” do aço chinês e proteger as siderúrgicas locais não surtiu o efeito esperado, já que há fugas geográficas, com materiais da China que passam antes por outros países.

Se o setor de obras de infraestrutura segue com crescimento muito lento, o segmento de construção civil tem expectativa de demanda maior por conta de projetos, como o programa Minha Casa, Minha Vida, que deve desaguar numa maior concorrência entre as empresas

“O ano de 2025 será muito parecido com 2024 e a construção civil continua segurando a demanda. O desafio é o aço importado. O nosso aliado é o dólar em alta, que, acima de R$ 5,60 o ano inteiro, é inibidor do aço importado. Esperamos que o governo brasileiro enxergue de uma maneira mais objetiva que existe uma guerra comercial mundial”, diz Nascimento.

Nos bastidores do setor, há pressão para que o Brasil implemente novas ações protecionistas que possam ajudar a conter essa avalanche de aço importado. O governo brasileiro já sinalizou discussões sobre medidas antidumping, mas o ritmo lento dessas iniciativas preocupa o setor.

A empresa viu um aumento de 6,8% na receita líquida, que fechou o ano em R$ 1,84 bilhão, desempenho sustentado pelo aumento no volume de vendas de laminados e semiacabados, que cresceu 10,7%.

Embora a AVB concentre suas vendas no mercado interno, um movimento protecionista americano, com nova imposição de tarifas sobre o aço pelo presidente dos EUA, Donald Trump, pode redirecionar excedentes globais de aço para mercados como o Brasil, aumentando ainda mais a competição local.

A empresa captou, no ano passado, R$ 200 milhões por meio da emissão de debêntures verdes. Parte destes recursos será usado para conclusão da fábrica de oxigênio entre setembro e outubro de 2025. A expectativa é que a empresa triplique o volume do gás que utiliza na produção.

A presidente da Aço Verde do Brasil, Silvia Nascimento, e o diretor financeiro e de relações com investidores, Gustavo Rozenbaum Bcheche, frisam que a companhia conseguiu crescer em 2024 em meio a um ambiente de preços deprimidos e concorrência agressiva do aço chinês — Foto: Divulgação

Valor - SP   24/03/2025

O Índice de Confiança da Indústria do Aço (ICIA), medido pelo Instituto Aço Brasil, fechou março em 32,3 pontos, uma queda de 2,4 pontos em relação a fevereiro

A produção de aço bruto no país caiu 1,6% em fevereiro, na comparação com igual mês do ano passado. Em fevereiro deste ano, foram fabricadas 2,720 milhões de toneladas, contra 2,764 milhões de toneladas em igual mês de 2024.

No acumulado do primeiro bimestre, foram 5,534 milhões de toneladas, 0,9% a mais que as 5,486 milhões de toneladas produzidas nos dois primeiros meses de 2024. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (21) pelo Instituto Aço Brasil.

A utilização da capacidade instalada em fevereiro foi de 64,1%, contra 65,1% em igual mês de 2024, enquanto, no primeiro bimestre, a média foi de 65,2%, contra 64,6% nos dois primeiros meses de 2024.

Em relação às vendas internas, foi 1,7 milhão de toneladas em fevereiro, 8,1% a mais que o 1,573 milhão de toneladas de um ano antes. No primeiro bimestre, as vendas internas somaram 3,394 milhões de toneladas, 6,6% a mais que as 3,185 milhões de toneladas do primeiro bimestre do ano passado.

As exportações em fevereiro somaram 892 mil toneladas, 29,3% a mais que as 689 mil toneladas de igual mês de 2024, enquanto no primeiro trimestre, as vendas externas foram de 1,799 milhão de toneladas, 10,7% a mais que o 1,625 milhão de toneladas dos dois primeiros meses de 2024.

Em relação às importações, foram 469 mil toneladas em fevereiro, 5,1% a mais que as 446 mil toneladas de fevereiro do ano passado. No primeiro bimestre, as importações foram de 1,020 milhão de toneladas, 25,6% a mais que as 812 mil toneladas do primeiro bimestre de 2024.

O Índice de Confiança da Indústria do Aço (ICIA), medido pelo Instituto Aço Brasil, fechou março em 32,3 pontos, uma queda de 2,4 pontos em relação a fevereiro. Este foi o quinto recuo consecutivo na confiança dos CEOs do setor. O índice segue bem abaixo da média histórica de 53,0 pontos, indicando falta de confiança no setor.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Técnicos dos ministérios de Relações Exteriores (MRE) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) fazem nesta sexta-feira, 21, uma nova reunião de negociação com os Estados Unidos para tentar amortecer as sobretaxas impostas por Donald Trump, que no Brasil já afetam produtores siderúrgicos. O encontro será realizado por videoconferência.

Esta será a segunda reunião desde que a tarifa de 25% sobre a importação de aço e alumínio pelos americanos passou a valer, medida que entrou em vigor no último dia 12.

De acordo com pessoas a par das conversas, a reunião desta sexta-feira deve seguir o perfil da semana passada e não deve ter encaminhamentos conclusivos. Por enquanto, a lógica brasileira é negociadora, uma vez que o Brasil vê argumentos consistentes para mostrar que, do ponto de vista do interesse da política externa de Trump e do setor privado americano, as tarifas sobre o aço brasileiro não são benéficas.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu abrir um canal de alto nível com os EUA no começo de março, quando o vice-presidente e ministro do Mdic, Geraldo Alckmin, fez uma videoconferência com o secretário de Comércio do país, Howard Lutnick, e o chefe do USTR, Jamieson Greer.

O Brasil quer convencer os americanos que sobretaxar a produção siderúrgica local vai ferir diretamente a indústria estadunidense. Isso porque a maior parte da exportação brasileira que chega em solo americano é de material semiacabado (placas). Siderúrgicas locais não são autossuficientes na fabricação deste material e importam esse tipo de aço para finalização doméstica. Como a compra de outros países é imprescindível, especialistas apontam que a sobretaxa vai implicar aumento de custo para os produtores norte-americanos.

Por entender que tem argumentos consistentes, o governo brasileiro tem insistido que vai priorizar o diálogo com os Estados Unidos, podendo avançar para eventuais concessões em troca de um sinal verde de Trump. A aplicação de reciprocidade é vista como a última opção, acionada caso o processo negociador não dê resultados.

Trump tem se mostrado irredutível em estabelecer exceções para a tarifa do aço e do alumínio, postura diferente de seu primeiro mandato, quando aceitou um acordo de cotas de exportação pelo Brasil que evitou a sobretaxa sobre a siderurgia local em 2018. “Não vamos ceder”, disse o republicano à imprensa local na semana passada.

CNN Brasil - SP   24/03/2025

Em meio a um cenário de incertezas e mudanças vertiginosas, em que os desafios se avolumam como ondas em mar revolto, é nas lideranças inspiradoras que encontramos a luz capaz de iluminar os caminhos do Brasil rumo a um futuro de águas calmas. Com visão estratégica e valores, tais figuras enfrentam as tempestades e desbravam novos horizontes que nos permitem imaginar uma sociedade mais justa e próspera.

Grandes líderes empresariais carregam não somente a responsabilidade de conduzir seus negócios, o que já é grande desafio, particularmente no Brasil, mas também inspiram aqueles à sua volta a acreditar que, mesmo nos momentos mais turbulentos, a grandeza é possibilidade concretizável.

Na última coluna, destaquei Carlos Aguiar, ex-presidente da Aracruz e Fibria Celulose, como uma dessas lideranças-chave, que ajuda a entender o êxito da indústria de base florestal. Neste artigo, me debruço sobre a caminhada e os aprendizados de outra figura excepcional da iniciativa privada brasileira: Jorge Gerdau.

Presidente, por 23 anos, do grupo que leva o nome de sua família, uma das grandes siderúrgicas do mundo, é um exemplo notável de perseverança, inovação e compromisso com o país. Sua autobiografia, “A Busca” (Editora Citadel), é uma obra que nos convida a refletir.

Suas contribuições para a economia brasileira e para a modernização da gestão pública são inegáveis. Inquieto, curioso e determinado, ele personifica a figura do líder que não se contenta com o status quo.

Seu itinerário se relaciona a uma longa história familiar que remete ao século 19, quando seu bisavô, João Gerdau, chegou ao Brasil como comerciante vindo da Alemanha e se estabeleceu no Rio Grande do Sul (RS). Décadas mais tarde, a Gerdau viria a ser fundada.

A trajetória da família é marcada pela transmissão de valores fundamentais como a perseverança, o foco em resultados e o respeito às pessoas. Esses e outros princípios foram essenciais para transformar o que começou como uma pequena fábrica de pregos em uma multinacional líder no setor siderúrgico que hoje já passa dos 120 anos.

O crescimento da Gerdau é um exemplo de como gestão eficiente, governança e inovação podem levar uma empresa ao topo. Advogado de formação, Jorge assumiu o comando do grupo em 1983 após acumular experiência em diferentes setores na companhia. Sua liderança visionária foi crucial para modernizar a Gerdau, adaptá-la às demandas de um mercado em constante transformação e expandir as operações.

Entre conquistas marcantes de sua gestão, estão a aquisição da Açominas, aposta que se mostrou um grande acerto da Gerdau, e a bem-sucedida entrada no mercado norte-americano, ainda na década de 1980.

Na autobiografia, Gerdau nos dá pistas sobre as origens reflexivas de sua visão voltada à adaptação, que fundamentou sua capacidade de gestão e o próprio sucesso da empresa em sua geração.

Com uma relação próxima com o mar, Jorge adquiriu sua primeira prancha de surfe na década de 1960 e passou a praticar o esporte. Do surfe, extraiu lições valiosas, como a ideia de que determinadas forças podem ser tanto um obstáculo quanto estímulo propulsor, dependendo de como nos posicionamos diante delas. As ondas que precisam ser superadas pelo surfista são as mesmas que o trarão de volta à praia ao fim da prática.

Essa metáfora ilustra bem sua visão de negócios: é preciso entender e considerar as múltiplas forças em atuação ao nosso redor, sejam elas políticas, culturais, sociais, sejam econômicas ou tecnológicas. O desafio é se adaptar para alcançar objetivos que fortaleçam a empresa e que contribuam para a sociedade.

Assim como no surfe, o mundo dos negócios exige adaptação constante, especialmente em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, políticas e ambientais. A Gerdau soube se reinventar ao longo dos anos, alinhando-se às mudanças e mantendo-se na vanguarda do setor. Um exemplo disso é o compromisso da empresa com a sustentabilidade, que se tornou um pilar central de sua estratégia.

A empresa foi pioneira na adoção de florestas energéticas, cultivando árvores para produzir carvão vegetal, necessário à fabricação do aço verde. Focada em reduzir as fontes fósseis e produzir a partir de fontes renováveis, as áreas de cultivo da Gerdau somam 163 mil hectares no Brasil, além de 91 mil hectares de áreas de conservação de florestas nativas.

Com uma visão consolidada de economia circular, a empresa foi precursora no uso de sucata para produção de aço de alta qualidade. Hoje, tem capacidade de produzir mais de 70% de seu aço por essa rota. Com ambas as estratégias e um compromisso sólido com a sustentabilidade de suas operações, a Gerdau tem uma média de emissão de gases de efeito estufa muito abaixo da global por tonelada de aço produzido.

A visão voltada à sustentabilidade vai além do meio ambiente, englobando sistemas que consideram os impactos econômicos, sociais, ambientais, políticos e culturais das atividades empresariais. Para Jorge Gerdau, a sustentabilidade é a busca por resultados que não comprometam o futuro, garantindo a perenidade dos negócios e do próprio planeta.

Outro aspecto fundamental da filosofia de Gerdau é o valor atribuído às pessoas. Ele acredita que o sucesso de uma empresa depende diretamente do respeito e da valorização de seus colaboradores, do chão de fábrica ao alto escalão. Essa cultura de respeito e excelência, disseminada ao longo de gerações, é uma das vigas que não apenas sustenta, mas que também caracteriza a Gerdau até hoje.

Essa perspectiva não se limita ao mundo dos negócios; é igualmente relevante para a construção de um país melhor. Jorge Gerdau esteve à frente do conselho de administração de iniciativas como o Movimento Brasil Competitivo, na louvável busca por aprimorar a gestão pública nos níveis estadual e federal, e o Todos Pela Educação, que defende a melhoria e modernização da educação no Brasil.

Com “A Busca”, Jorge Gerdau nos deixa uma mensagem de otimismo e esperança. Os valores que guiaram sua trajetória — respeito, educação, comunidade, excelência, liberdade, propósito, sustentabilidade, entre outros — são um farol. Seu legado nos mostra que, com determinação e visão, é possível transformar desafios em oportunidades e contribuir para a grandeza de um país que ainda tem muito a conquistar.

Uma inspiração para todos nós, as lições da busca de Gerdau são, acima de tudo, uma fonte para a nova geração de líderes preocupados com o amanhã; que veem seus negócios como parte intrínseca da sociedade que integram, compartilhando suas condições de existência e possibilidades de sucesso ou fracasso.

Sua trajetória pode ser, também, luz que ilumina caminho para formar bons condutores e quadros que ocupem o crônico e enorme vazio de lideranças que infelizmente o Brasil apresenta também nas áreas empresarial, social e política.

Esta é uma obra que reúne um testemunho do poder da perseverança, da inovação e do compromisso com valores que transcendem o tempo e as gerações. Sua trajetória nos lembra que a curiosidade e o empenho que visam à excelência oferecem caminho possível, mas também reflete uma necessidade urgente para todos que investem sua vida na construção do que virá no futuro. Que possamos, como ele, encarar de frente os desafios, com coragem, sabedoria e forte sentido de continuidade.

ECONOMIA

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

‘O economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, entende que o ciclo de aperto monetário está perto do fim. Ele prevê que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevará a Selic em 0,5 ponto porcentual em maio, finalizando a sequência de aumentos da taxa de juros.

De acordo com o economista, o BC considera que as ações de política monetária agem na economia com defasagem de 12 a 18 meses, e ainda está por vir muito do efeito da alta de juros sobre a atividade, que já dá sinais de desaceleração.

O diferencial de juros, que provavelmente aumentará se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduzir sua taxa de juros, e a expectativa de uma safra agrícola recorde, que deve aumentar as exportações de grãos e valorizar o real, contribuem para essa visão, segundo Serrano. Isso pode desacelerar a inflação.

Que leitura você fez do comunicado do Copom?

Não diferiu muito do que a gente esperava. Havia dois pontos de dúvidas em termos analíticos. A questão da assimetria do balanço de riscos e a da comunicação prospectiva, os próximos passos da política monetária. Tinha gente achando que seria deixado totalmente em aberto, não seria sinalizado. E tinha gente, como nós, que esperava sinalização de extensão do ciclo com ajuste de menor magnitude. Manteve a assimetria do balanço de riscos e sinalizou com ajuste de menor magnitude.

E em termos da precificação do mercado?

O comunicado veio compatível com a precificação do mercado, que já havia colocado 0,50 ponto porcentual de aumento para a próxima reunião como o mais provável.
É o que vocês do Bmg acreditam que vai acontecer?

Sim. Espero ao menos 0,50 ponto na reunião de maio. Em junho, acho que não terá aumento. E nesse comunicado há um ponto que reforça a percepção de que o ciclo monetário está próximo do final.

Por quê?

Porque o BC já falava das incertezas inerentes às defasagens temporais das ações de política monetária. Qualquer ação de política monetária demora de 12 a 18 meses para afetar a economia. Houve 3 pontos porcentuais de aumento da Selic (desde dezembro) e o mais provável é que a taxa bata nos 14,75%.

Sabe-se que 14,75% de juro não trará a inflação para a meta. Mesmo assim acha que as altas devem parar?

Serrano: Sim, porque o BC vai absorver informações que gerarão confiança em relação à desaceleração da atividade. Ele já destacou que há um movimento neste sentido, ainda que incipiente. Esse processo, lá na frente, vai gerar também o arrefecimento da inflação. Quando formos para a próxima reunião do Copom, o horizonte relevante do BC já vai ser o quarto trimestre de 2026, e não mais o terceiro. À medida que o tempo for passando, a gente vai ter o reforço do cenário de convergência na inflação para mais próximo de 3%. Atingir esse centro de meta no terceiro trimestre de 2026 não dá mais.
Mas o câmbio está valorizando, isso não ajuda no combate à inflação?

É claro que o câmbio pode continuar valorizando, que podemos ter um choque positivo de preços de alimentos e outras coisas que influenciam a inflação. Mas tem também a questão da defasagem e das incertezas de que os preços chegarão ao nível que a gente acha com a Selic por volta de 15%. Mesmo que isso esteja errado, de julho não deve passar, será o fim do ciclo.
Estamos sob uma forte pressão de alimentos, mas é esperada uma safra recorde.

Tivemos alguns problemas mais localizados como a carne no ano passado, o café, mais recentemente, e efeitos sazonais como os preços dos ovos. Mas a expectativa é de que a dinâmica de preços de alimentos seja melhor. A gente espera que, com a safra agrícola mais forte, com a passagem desses primeiros quatro meses do ano, mais complicados em termos de preços de alimentos, as coisas melhorem um pouco.
E inflação não é feita apenas de alimentos, correto?

O mais importante é fazer o combate quando o choque começa a virar inflação via serviços, por exemplo, e via piora das expectativas de inflação. E é isso que está acontecendo. Vemos uma melhora da inflação de alimentos, mas mais importante é que estamos vendo também uma melhora na inflação do setor de serviços. Isso é bom porque a inflação de serviços tem um componente de inércia muito forte.

Olhando para frente, como vê a economia se comportando?

Vejo a economia desacelerando, alguma piora na dinâmica do mercado de trabalho, com o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) menos forte e o desemprego subindo. E esse cenário acaba ajudando um pouco a inflação de serviços. Por isso a gente espera, ao longo de 2025, alguma descompressão da inflação de serviços. Mas a descompressão maior será no ano que vem.
Por quê?

Porque tem essa inércia toda, herdada da inflação alta de agora, dos choques absorvidos e até mesmo da expectativa de inflação, que está sendo ancorada.

Mesmo que a gente venha a sofrer algum impacto do tarifaço, será modesto frente ao tamanho da balança e a nossa maior dependência em relação à economia chinesa.

Quais são as projeções de vocês para o PIB este ano?

Projetamos crescimento de 2% do PIB este ano. Mas o importante não é o número em si. O ponto é a desaceleração da demanda doméstica. No ano passado, a gente cresceu 3,4%, mas com a demanda doméstica crescendo entre 5% e 6,1%. Este ano acho que vamos crescer 2%, mas o agronegócio vai puxar a economia.
Quanto espera de crescimento para o agro este ano?

Prevemos crescimento de mais de 7% para o PIB Agrícola.

Quer dizer, está se trocando um crescimento puxado por demanda por um crescimento pela oferta.

É isso. A gente espera que a demanda doméstica desacelere. É importante, ela vai crescer abaixo do PIB. A composição do crescimento vai ser uma solução para a inflação.
E, para a inflação, qual a sua previsão?

5,4% para este ano e 4% para o ano que vem. Mesmo em 2026 a inflação vai estar acima do centro da meta. Tem alguns fatores que podem ajudar.
A taxa de câmbio é um destes vetores?

A taxa de câmbio pode continuar se valorizando se a gente continuar com esse ambiente mais favorável e afetar principalmente a inflação dos comercializáveis.
Arriscaria uma previsão para o dólar?

R$ 5,60 no final do ano. É uma projeção que não alterei porque havia uma visão de que o real poderia se valorizar. Deve ficar nesta faixa porque a balança comercial deve ajudar num maior ingresso de dólares e o diferencial de juros deve continuar bastante elevado ao longo do ano.

O fato de o Fed ter mantido o juro nos Estados Unidos e o Copom ter elevado a Selic ajuda o câmbio?

Sim, mas não é só isso. O diferencial de juros é importante, mas também há uma questão de expectativas. O que a gente viu na quarta-feira foi o mercado interpretando a decisão do Fed de manter a taxa de juros. O mais importante é que ele vai poder voltar a cortar e a gente ainda está num ciclo de terminar o processo de aperto monetário. Esse diferencial vai abrir ainda mais. Não é só a decisão em si de o Fed ficar parado e o Copom subir.
Qual a sua previsão para o saldo comercial deste ano?

US$ 82 bilhões.
Mesmo com as tarifas do Trump?

O que posso dizer é que o Brasil tem pouca representatividade na balança comercial norte-americana. Tende a ficar um pouco mais isolado das tarifas. Para o Brasil, os Estados Unidos são importantes na exportação de bens manufaturados, e nós importamos mais que exportamos para eles. Mesmo que a gente venha a sofrer algum impacto do tarifaço, será modesto frente ao tamanho da balança e a nossa maior dependência em relação à economia chinesa.

Exame - SP   24/03/2025

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de subir os juros para 14,25% ao ano foi a última que ainda guardava resquícios da gestão de Roberto Campos Neto. As últimas três altas de 1 ponto percentual foram contratadas em dezembro, quando ele ainda presidia da autoridade monetária.

A partir de agora, Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central (BC), tem as rédeas da comunicação e caberá a ele e aos demais diretores domar as expectativas para a inflação dos próximos anos.

Ao que parece, tanto Galípolo quanto os diretores — a maioria indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva — têm mostrado compromisso inabalável em reduzir o ritmo de alta dos preços no Brasil.

O empenho nessa tarefa foi explicitado no comunicado, quando os membros do Copom sinalizaram mais uma alta de juros na reunião de maio, o que foi interpretado pela maioria do mercado como elevação de 0,5 ponto percentual.

Quem temia uma mudança de rota do BC na gestão da política monetária com Galípolo recebeu mais uma prova de que ele e os demais diretores não têm compromisso com o erro nem darão margem para qualquer questionamento quanto à credibilidade do trabalho, mesmo com as pressões políticas comuns no governo petista.

Galípolo age tecnicamente, diz economista

O economista-chefe da gestora JGP, Fernando Rocha, afirma que o ajuste de três pontos percentuais, promovido pelo Copom no passado recente, foi feito de maneira técnica.

Segundo ele, a autoridade monetária manteve na comunicação o desconforto com a desancoragem das expectativas de inflação, citou a assimetria do balanço de riscos e se comprometeu com mais um ajuste, o que não dá margem para questionamentos do mercado.

“O mercado tem seus preconceitos e suas desconfianças — talvez com alguma razão — diante das críticas do presidente Lula ao Roberto Campos. Os preconceitos têm algumas justificativas, mas o Galípolo sabe dessa dificuldade. Ele e o Copom têm procurado agir tecnicamente”, diz.

Rocha afirma que o BC deve subir os juros em 0,5 ponto percentual na reunião de maio, para 14,75% ao ano. Para ele, uma elevação de 0,75 ponto percentual não teria o efeito adequado de mostrar uma redução de magnitude do ajuste monetário, como foi comunicado pela diretoria. O efeito poderia ser o contrário. Mostrar um ímpeto desnecessário no momento em que a economia dá sinais de desaceleração, pondera Rocha.

BC quer ganhar tempo para analisar economia

Drausio Giacomelli, economista sênior e estrategista do Deustche Bank para mercados emergentes, afirma que a comunicação do BC foi dura ao sinalizar uma piora do ambiente inflacionário do Brasil e da economia internacional.

Com tantas incertezas, a autoridade monetária reduzirá o ritmo de alta de juros para 0,5 ponto percentual para ganhar tempo e analisar os dados do nível de atividade e de inflação, aponta o economista.

"O BC está cauteloso, vai reduzir o ritmo de alta de juros, mas não me parece o fim. Ainda espero mais uma alta de 0,5 ponto percentual em junho, encerrando o ciclo de alta em 15,25%", diz.

A dúvida que persiste no mercado é o tamanho do ciclo de alta de juros. Até o momento, Galípolo e os demais diretores têm acertado em não dar margem para questionamentos sobre o compromisso em levar a inflação para a meta.

Entretanto, esse trabalho pode ser dificultado diante do impulso econômico que o governo começou a dar por meio da liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e das novas regras para a concessão de crédito consignado para quem trabalha com carteira assinada.

O mérito da medida de baratear o crédito para os brasileiros é inquestionável. Entretanto, como consequência, haverá uma pressão inflacionária com a injeção de mais recursos na economia.

O ápice desse debate ocorrerá em 2026, ano de eleição, se o governo conseguir aprovar a isenção de Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5.000 por mês. Em um país pobre como o Brasil, os ganhos de renda das famílias são canalizados para o consumo, o que, mais uma vez, resulta em pressão inflacionária.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Os dados de atividade da economia brasileira no quarto trimestre de 2024 indicaram um provável início de desaceleração da atividade, possivelmente em razão da política monetária fortemente contracionista adotada pelo Banco Central.

Por outro lado, os dados ainda sólidos do mercado de trabalho, geração de empregos formais bem acima das expectativas e estabilidade da taxa de desemprego, assim como o IBC-Br do mês de janeiro de 2025 (0,89%), indicam que essa desaceleração, se efetivamente está ocorrendo, é ainda tênue e gradual, incapaz de reverter a trajetória de aceleração da taxa de inflação.

Para que a desaceleração da atividade consiga ter um efeito desinflacionário importante, será necessário um mercado de trabalho menos apertado, capaz de reduzir a pressão sobre os preços dos serviços, e, ao mesmo tempo, reverter a trajetória de desvalorização cambial que persistiu ao longo de 2024, o que exige uma política fiscal mais contracionista.

Manter a política monetária contracionista, capaz de reverter a desancoragem das expectativas e ajudar na desaceleração da economia, vai demandar taxas de juros ainda mais elevadas do que as hoje vigentes. Porém, sem a ajuda de uma política fiscal contracionista, que sinalize a estabilização da relação dívida/PIB num horizonte relativamente curto, a política monetária sozinha não conseguirá atingir esse objetivo.

Entretanto, os sinais já apontam na direção de políticas fiscal e parafiscal expansionistas. Programas como o Vale-Gás, o Pé-de-Meia, a medida provisória que facilita a concessão de crédito consignado para os trabalhadores do setor privado, a liberalização dos recursos do FGTS para os trabalhadores que foram demitidos desde 2020 e que não conseguiram sacar o saldo total quando da demissão por terem optado pelo saque-aniversário, o que significa uma transferência de renda de aproximadamente R$ 12 bilhões para esses trabalhadores, estão já definidos.

De um lado, temos um Banco Central contracionista, aumentando a taxa de juros para desacelerar a atividade e cumprir seu mandato, que é atingir a meta para a inflação. De outro, um Executivo implementando políticas fiscal e parafiscal fortemente expansionistas com o objetivo de manter o nível de atividade aquecido e evitar um aumento do desemprego.

Se o Banco Central deixar de perseguir a taxa de juros que leva a inflação para a meta, teremos mais inflação. Se o Executivo adotar políticas fiscal e parafiscal contracionistas, teremos mais desemprego. Se o impasse persistir, teremos o que na teoria dos jogos se caracteriza como um equilíbrio de Nash, mais desemprego e mais inflação.

IstoÉ Dinheiro - SP   24/03/2025

O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, assegurou, neste domingo (23), que seu país seguirá comprometido com “a direção correta da globalização econômica” frente à crescente “fragmentação” da economia mundial, à medida que se intensifica uma nova guerra comercial com os Estados Unidos.

O número dois do gigante asiático falou em um fórum econômico em Pequim para empresários e executivos de multinacionais, em um momento em que o presidente americano, Donald Trump, impôs novas tarifas alfandegárias às exportações chinesas.

“Como um grande país responsável, a China se manterá firme do lado certo da História (…)” e agirá de forma justa, disse o primeiro-ministro Li em uma reunião com executivos de empresas multinacionais em Pequim.

Ele acrescentou que seu país “praticará um verdadeiro multilateralismo e se esforçará para ser uma força de estabilidade e segurança”.

– “Diálogo” –

O Fórum para o Desenvolvimento da China acolhe líderes empresariais desse país e do restante do mundo, entre eles o diretor-executivo da Apple, Tim Cook.

Em uma aparente alusão à nova guerra comercial impulsionada por Trump, o primeiro-ministro acrescentou que “a fragmentação da economia global atual está se intensificando” e afirmou que a “instabilidade e a incerteza estão em seu ponto máximo”.

Li, que se reuniu com o senador americano Steve Daines, instou ao “diálogo” entre Pequim e Washington. A visita de Daines a Pequim é considerada uma tentativa de apaziguar a tensão nas relações bilaterais.

“As duas partes devem escolher o diálogo ao invés do confronto, a cooperação benéfica para todos ao invés da concorrência de soma zero”, disse Li.

Nas últimas semanas, Pequim demonstrado uma atitude aberta ao diálogo com Trump sobre os desafios comerciais.

Daines se reuniu na véspera com o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, encarregado de assuntos econômicos.

Daines, senador pelo estado de Montana, que morou durante vários anos na China e em Hong Kong, tinha entre suas prioridades discutir dois temas de atrito entre Pequim e Washington: as relações econômicas e o tráfico de fentanil, uma droga que está causando estragos nos Estados Unidos e cujos precursores são produzidos na China.

“A China se opõe firmemente à politização, à militarização e à instrumentalização de assuntos econômicos e comerciais. Está disposta a estabelecer um diálogo franco com os Estados Unidos com base no respeito mútuo, na igualdade e no benefício mútuo”, disse He ao senador americano, segundo a agência oficial de notícias chinesa Xinhua.

– Tarifas em série –

Trump insistiu em que as novas tarifas alfandegárias cobradas da China se devem ao fracasso de Pequim em deter o envio de produtos químicos que alimentam a crise de drogas nos Estados Unidos.

Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro, Trump aumentou em 20% as tarifas alfandegárias adicionais sobre todos os produtos chineses que entram em seu país.

A China respondeu, por sua vez, com tarifas de até 15% sobre alguns produtos agrícolas americanos, em particular soja, carne suína e frango.

Pequim, cuja economia sofre uma crise persistente no setor imobiliário e em um contexto de tensões comerciais renovadas, busca restaurar a confiança dos consumidores desde o fim da pandemia.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

A política tarifária que os Estados Unidos estão implementando em relação a vários países não é inédita na história americana. Em 1930, como resposta ao ‘crash’ financeiro do ano anterior, o presidente Herbert Hoover aumentou, de uma só vez, tarifas de importação de 20 mil itens. A lei ficou conhecida como Smoot-Hawley Tariff Act.

O objetivo foi fortalecer a produção interna, dentro da lógica da substituição de importações. As economias atingidas fizeram o mesmo e o resultado é que os EUA perderam fluxo de comércio. As importações e exportações americanas caíram 67% após o tarifaço, o que não ajudou no processo de superação da Grande Depressão.

O economista John Maynard Keynes classificou a iniciativa de “política de empobrecer seu vizinho”, mas que, afinal, acabou prejudicando a todos.

Pouco tempo depois, à medida que foram surgindo efeitos como alta da inflação, redução da demanda e crise financeira, os EUA retomaram as negociações de acordos bilaterais, num ajuste gradual das relações.

Essa experiência de tarifas elevadas para resolver problema interno mostrou a importância de se ter mecanismos internacionais para cooperação comercial e solução de litígios. Hoje, esse papel está a cargo da Organização Mundial do Comércio (OMC).

As cadeias produtivas globais são uma realidade. Um elo desarranjado acarreta perdas gerais pelo desequilíbrio das relações.

Mas há uma diferença relevante do que ocorreu 95 anos atrás. Hoje, existe uma consciência coletiva de que o multilateralismo é o caminho a ser seguido. O comércio internacional bem equilibrado propicia ganhos de escala e de produtividade aos países e melhora as condições para a criação de riquezas.

A grandeza econômica dos Estados Unidos é indiscutível. No entanto, decisões comerciais unilaterais e abruptas contra parceiros comerciais e aliados históricos esgarçam essa força, que é reconhecida de forma predominante pelos países.

O comércio global é um caminho sem volta para o mundo e para o Brasil. No ano passado, as exportações brasileiras chegaram a 18,0% do PIB e as importações, a 17,5%. Esse intercâmbio é um dos propulsores mais importantes para nosso desenvolvimento. Para prosperar, a economia global demanda paz e não guerras comerciais.

Esse contexto faz lembrar de uma frase do líder chinês Xi Jinping, em Davos, anos atrás: “O protecionismo é como estar dentro de uma sala fechada na companhia de um tigre”.

Globo Online - RJ   24/03/2025

Aberta ao público nesta sexta-feira, a oferta de crédito consignado privado do Programa Crédito do Trabalhador, lançado pelo governo federal, tende a injetar mais recursos na economia e estimular o consumo das famílias num momento de juros elevados.

Economistas explicam que a substituição de dívidas mais caras por outras mais acessíveis tende a manter mais recursos disponíveis na mão dos consumidores. No entanto, não confere sustentabilidade ao crescimento econômico e acende uma “luz amarela” sobre a inflação, dificultando o trabalho do Banco Central de esfriar a atividade com a alta da taxa básica de juros.

Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), considera a medida positiva porque se alinha à necessidade de redução estrutural das taxas de juros no país. De imediato, ele entende que a modalidade reduz o custo das dívidas das famílias, que atualmente enfrentam altas taxas no cartão de crédito e no rotativo.

Por outro lado, o fato de a medida ocorrer num momento em que a demanda segue elevada, com mercado de trabalho e comércio aquecidos, levanta questão sobre controle da inflação por parte do Banco Central.

— O problema é que o consumidor pode perceber no crédito mais barato um estímulo adicional para consumir mais e não reduzir o seu grau de endividamento. E aí vai caber mais uma vez ao BC enxugar esse excesso de liquidez na liberação de recursos. Então, do ponto de vista conjuntural, vai produzir aqui positivos de curto prazo, mas cria problemas adiante — afirma ele.

— Faz sentido para alavancar o consumo, mas vai colocar mais gasolina na fogueira da inflação – conclui.

O aumento da inadimplência também gera preocupações. Bentes lembra que o crédito com recursos livres para pessoa física registrou inadimplência de 5,5% em janeiro, acima dos 5,3% registrados em novembro. E o mercado de trabalho aquecido dá lastro para que as famílias se endividar mais.

— A luz amarela que se coloca é o comportamento da inadimplência. Ela vem ensaiando, nos últimos três meses, uma tendência de alta. E, quando cruzamos o dado do mercado de trabalho, as famílias colocaram o pé no acelerador. Ela poderia estar condicionada a uma troca de dívidas. E isso pode fazer com que o quadro da inadimplência se agrave. E o quadro da inflação demore a ser corrigido.

Dados do Banco Central mostram que o nível de endividamento das famílias brasileiras voltou a subir no fim do ano passado, após certa estabilidade no primeiro semestre. Em dezembro, o nível de comprometimento de renda das famílias com dívidas chegou a 48,32%. Trata-se do maior patamar desde junho de 2023, quando ficou em 48,40%.

O movimento ocorreu em meio ao aperto monetário promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que desde setembro voltou a elevar a taxa básica de juros, a Selic, deixando o crédito mais caro.

Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências, aponta que a nova modalidade pode impulsionar o consumo no curto prazo, indo na contramão do necessário esfriamento da economia. A Tendências projeta alta de 1,7% para o consumo das famílias, após avanço de 4,8% no ano passado. Se confirmada a expectativa, será a menor taxa de crescimento desde 2010, excluindo os anos de crise, como 2015, 2016 e 2020.

— A partir do momento que você melhora o nível de comprometimento das famílias com dívidas, isso abre espaço em renda disponível e isso pode fortalecer o consumo. No momento, a gente espera que o consumo enfraqueça para que a inflação ceda a patamares mais baixos. E tem a questão do timing. — explica. — O governo adota uma medida que dá suporte ao consumo quando se tenta esfriá-lo para controlar os preços. Não estamos prevendo que o consumo cresça tanto quanto no ano passado, mas talvez ele fique mais resiliente e dê mais trabalho para o Banco Central.

Apesar da esperada injeção sobre o consumo, Alessandra não espera um aumento da inadimplência como efeito do novo programa de crédito. Para ela, a modalidade pode, na verdade, ajudar a reduzir esse risco.

A visão sobre inadimplência difere da avaliação de Katherine Hennings, economista e pesquisadora associada do FGV IBRE. A economista entende que o acesso à nova modalidade traz riscos de aumento do endividamento e possível aumento da inadimplência, especialmente entre trabalhadores que ganham menos.

O risco, segundo Hennings, está no fato de que muitas pessoas podem não usar o novo crédito para substituir dívidas mais caras, e sim para contrair novos compromissos financeiros.

— Se a economia desacelerar e o desemprego aumentar, as pessoas continuarão endividadas. (...) Entre quem ganha de 2 a 3 salários mínimos, a inadimplência é bem mais alta. São essas pessoas que também sofrem com a inflação. E seriam essas pessoas, inclusive os MEIs, que devem ter acesso a essa modalidade.

Para ela, a chegada do novo formato de crédito reforça a necessidade de ampliar o letramento financeiro da população, especialmente dos mais pobres.

— Não é trivial a gestão dessa nova modalidade. A população brasileira, principalmente a de baixa renda, precisa aprender a lidar com o que significa o crédito. O consignado compromete uma parcela da renda por um tempo. Lá na frente, isso pode acelerar o aumento da inadimplência — alerta.

Delber Lage, CEO da SalaryFits, empresa adquirida pela Serasa Experian, avalia que a nova regulamentação do consignado privado tem o potencial de torná-lo uma linha de crédito mais abrangente, já que elimina a necessidade de aprovação do RH para a oferta do serviço.

No entanto, o especialista alerta que a taxa de juros do consignado privado não será necessariamente mais baixa para todos. Isso porque há fatores como o risco do empregador e a questão operacional. Empresas menores, terceirizadas ou com alta rotatividade tendem a ter juros mais altos que os demais perfis de empregadores, explica.

Outro fator é que o atual modelo de leilão, em que os bancos têm 24 horas para apresentar propostas, leva a uma precificação média, o que acaba resultando em taxas de juros mais altas. Essa situação pode melhorar a partir do dia 25 de abril, segundo o especialista, quando os bancos poderão originar crédito diretamente pelo canal deles.

— Tem uma perspectiva de uma injeção forte de crédito na economia num momento importante para o governo, que tem uma eleição se aproximando. O que a gente precisa observar, no entanto, é a premissa de que esse crédito vai ser mais barato para todo mundo. Isso não é necessariamente verdadeiro.

Ele continua:

— Mas é uma linha de crédito que vai evoluir tanto pelos lançamentos que estão previstos, como a do canal direto, quanto pela tecnologia de automatizar processos e diminuir o risco operacional. O mercado tende a ter melhorias com o passar dos meses — conclui.

MINERAÇÃO

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Muitas das reservas de minério de ferro e cobre mais ricas do mundo são anteriores à ruptura do último supercontinente, Pangéia, há cerca de 200 milhões de anos. Posteriormente, as mudanças tectônicas espalharam os dois metais favoritos da economia global pela superfície da Terra. Uma grande quantidade de ferro foi parar no que hoje são a Austrália e o Brasil. Prodigiosas camadas de cobre pré-pangeia se estabeleceram em lugares como a África Central.

Em tempos mais recentes - extremamente recentes, geologicamente falando -, o setor de mineração formado para escavar essa antiga recompensa vem passando por sua própria versão de deriva continental. Seu modelo de negócios está se dividindo, dizem os chefes ocidentais. De um lado estão gigantes multinacionais como a BHP, a Rio Tinto e a Vale. Elas têm como objetivo maximizar os retornos sobre o capital que colocam para trabalhar, ao mesmo tempo em que adotam uma abordagem cautelosa em relação aos riscos. Do outro lado, estão os rivais chineses, que são muito mais agressivos. À medida que o minério de ferro e o cobre se tornam mais escassos, isso pode significar problemas para as empresas ocidentais.

Os minerais críticos que recebem mais atenção tendem a ser coisas como lítio, usado em baterias, e metais de terras raras com nomes exóticos, como vanádio, que são usados em eletrônicos. Eles são a razão pela qual Donald Trump cobiça a Groenlândia e o acesso às riquezas subterrâneas da Ucrânia, que ele exigiu em troca da ajuda americana para negociar a paz com a Rússia. O minério de ferro e o cobre, que representam talvez metade do valor de todos os metais extraídos em todo o mundo, não provocam tais ataques.

As terras raras e o lítio são comuns, mas difíceis e sujos de extrair. Com algumas fábricas domésticas, os Estados Unidos poderiam “resolver seu problema de terras raras”, avalia um executivo de mineração, a um custo de talvez US$ 20 bilhões a US$ 40 bilhões (R$ 114 bilhões e R$ 224 bilhões) - uma partícula de poeira na pilha que é o orçamento federal de US$ 7 trilhões (R$ 40 trilhões) por ano. Os dois grandes metais básicos, por outro lado, sempre foram difíceis de encontrar e estão se tornando cada vez mais difíceis à medida que os depósitos conhecidos são retirados.

Durante boa parte das últimas quatro décadas, as gigantescas mineradoras ocidentais fizeram a maioria da escavação. Eles foram estimulados pela globalização, que estava emergindo como a força mais poderosa que moldava a era que alguns geólogos batizaram de antropoceno. A ascensão do Japão na década de 1980 e da China a partir dos anos 2000 impulsionou a demanda por cabos de aço e cobre. Entre 2010 e 2014, quando a China ficou obcecada com a construção e os preços dos metais subiram, a BHP, a Rio Tinto e a Vale investiram, juntas, US$ 200 bilhões (R$ 1,1 trilhão) em investimentos de capital.

Isso deixou os gigantes dos metais básicos expostos quando os preços despencaram. De 2015 a 2019, os lucros anuais coletivos antes dos impostos do trio foram, em média, de US$ 30 bilhões (R$ 171 bilhões), em comparação com quase US$ 60 bilhões (R$ 342 bilhões) nos cinco anos anteriores. Em um determinado momento, no início de 2016, as três valiam menos do que o valor contábil de seus ativos. Os retornos sobre esses ativos tinham acabado de se tornar negativos, abaixo dos 15–25% registrados em meados de 2011. O valor de mercado combinado das três caiu de mais de meio trilhão de dólares em 2011 para pouco mais de US$ 100 bilhões (R$ 571 bilhões) cinco anos depois.

O descontentamento dos investidores com a indisciplina do capital forçou as mineradoras a pensar cuidadosamente sobre onde colocar seu dinheiro. Cada projeto agora é examinado quanto ao seu potencial de maximização de lucros. Os gastos de capital foram controlados. Os lucros se recuperaram. As capitalizações de mercado não voltaram aos altos patamares do início da década de 2010, mas não estão mais no chão.

À medida que as empresas ocidentais se tornaram menos aventureiras, as rivais chinesas controladas pelo Estado se tornaram mais. Parte disso tem a ver com a maior tolerância chinesa em relação a jurisdições duvidosas. Empresas listadas em bolsa, mas controladas pelo Estado, como a Zijin Mining e a CMOC, entraram na República Democrática do Congo (RDC), devastada por conflitos, ansiosas para colocar as mãos no cobre da África Central, bem como nas maiores reservas conhecidas de cobalto do mundo (que também é importante para a fabricação de baterias). Um consórcio liderado pela China fez o mesmo com uma grande parte do gigantesco projeto de minério de ferro Simandou, na Guiné, que já foi detido pela Vale (a Rio Tinto mantém uma participação).

É verdade que as empresas chinesas tendem a ser menos limitadas do que as empresas ocidentais por preocupações com direitos humanos, vandalismo ambiental e corrupção. Para nivelar o campo de atuação e “promover a segurança econômica e nacional americana”, Trump ordenou que seu Departamento de Justiça parasse de aplicar a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. No entanto, os chineses têm duas vantagens ainda maiores. A primeira, compartilhada com o restante do setor chinês, é uma atitude despreocupada em relação aos lucros. A margem operacional de 11% da Zijin é menos da metade da margem da Rio Tinto e da Vale, e um terço da margem da BHP. A Jiangxi Copper consegue 2%. Apesar disso, elas desfrutam de um custo de capital mais baixo, graças ao seu patrocinador estatal.
Sem compromisso financeiro

O desprezo pelo resultado final permite que os chineses se movam mais rapidamente - sua segunda vantagem. A CNMC, uma mineradora chinesa totalmente estatal, levou menos de quatro anos para desenvolver a mina de cobre e cobalto Deziwa na RDC, desde a assinatura de um contrato de joint venture com um parceiro congolês até os primeiros embarques de minério. Em comparação, a papelada para a planejada mina de cobre Resolution da BHP no Arizona foi apresentada pela primeira vez em 2013, sem previsão de término.

Mesmo em lugares menos burocráticos do que os Estados Unidos, as empresas ocidentais podem levar três vezes mais tempo para colocar as minas em funcionamento do que suas rivais chinesas, admitem os chefes. Isso ocorre porque a BHP e seus pares precisam manter seus acionistas satisfeitos, o que significa uma diligência minuciosa para justificar cada projeto com base em seus próprios méritos. Os chineses preferem uma abordagem de copiar e colar que pode resultar em operações menos otimizadas. Entretanto, elas começam a produzir resultados muito mais cedo.

A velocidade era menos importante quando as taxas de juros mínimas faziam com que o dinheiro no futuro valesse quase tanto quanto o dinheiro de amanhã. Com o aumento das taxas de juros, o valor da agilidade também aumentou. Os chefes de mineração não devem sacrificar a prudência. Mas talvez precisem acelerar suas decisões sedimentares.

Globo Online - RJ   24/03/2025

Gustavo Pimenta assumiu o cargo de CEO da Vale em outubro e no mês seguinte já estava visitando a China, responsável por 60% das receitas da minerador. “É um mercado que a gente acompanha de perto”, diz Pimenta ao GLOBO, em Pequim. Em sua segunda visita ao país, ele sente uma mudança positiva na economia, com avanços em infraestrutura e manufatura.

No atual cenário de guerra comercial e pressão vinda dos EUA para que esforços em descarbonização sejam deixados de lado, ele afirma que governo e empresas chinesas mantêm o foco em reduzir emissões, o que gera oportunidade para o Brasil usar sua oferta de minerais raros para ser protagonista na transição energética global.

Como enxerga o estado atual da economia chinesa?

Quando estive aqui em novembro, saí com uma sensação de que havia coisas a fazer e que a economia ainda estava com uma série de desafios. Desta vez, o tom mudou bastante. Estou aqui há uma semana, estive com clientes e ministros em Xangai e Pequim, falei com muita gente. O tom mudou nesses seis meses. A sensação é que as ações do governo estão sendo muito mais concretas, os clientes comentam que têm percebido demanda sólida.

Demorou um certo tempo, mas a gente percebe que o tom mudou e a atividade econômica tem reagido. Muito estímulo ao consumo. A China passa por uma grande mudança em seu modelo, entre o que foi no passado, baseado num mercado de propriedades, e agora, mais focado em consumo e manufatura. No geral, a gente percebe um momento econômico bem mais positivo.

Na demanda de minério de ferro na China, a crise do setor imobiliário é compensada pelo investimento em infraestrutura?

A grande medida é a produção anual de aço. Houve redução da dependência do mercado imobiliário, que era 40% do mercado do minério de ferro. Caiu para 30%. A parte de infraestrutura continuou forte e a manufatura acelerou bastante, com linha branca, veículos e a nova economia, descarbonização, painel solar, energia eólica. Tudo isso também chama muito minério. A gente percebe uma mudança no mix, mas a produção de aço se manteve acima de um bilhão de toneladas.

A gente continuou tendo um mercado sólido, aqui. Foi uma mudança impressionante, porque eles conseguiram fazer esse ajuste de forma relativamente rápida, mas continuam sendo setores que demandam minério no longo prazo, porque precisam de aço. A gente ainda é muito construtivo no médio e longo prazos.

Essa tese de descarbonização é intensiva. Uma casa na China, construída nos últimos anos, tem uma penetração de aço de 1%. Nas economias desenvolvidas é de 6%. Se você pensar, a oportunidade, a penetração de aço oferece demanda adicional. No curto prazo, a manufatura segurou a produção de aço, o que acabou mantendo a demanda pelos nossos produtos.

A mudança para a manufatura foi sobretudo para exportação?

Teve muita exportação, e aí entra uma questão geopolítica, que tem um recorte na equação: carros elétricos no Brasil, muita linha branca para o Sudeste asiático. Tem uma agenda muito acelerada de descarbonização. Essa é uma questão que eu vi, toda essa discussão sobre recuo na descarbonização que tem sido mundial, aqui continua focado nisso. E é focado em aço e minério de ferro.

Como políticas de Donald Trump afetam os negócios da Vale?

Guerras tarifárias nunca são boas porque acabam gerando um potencial arrefecimento do PIB mundial, e isso é ruim para a demanda por minério de ferro. Haverá uma acomodação nesses debates porque vai impactar a atividade econômica e vai haver reação de acomodação entre as nações.

Uma variável relevante é entender como a China estava reagindo a algumas questões macro, como a descarbonização. Porque isso tem efeito importante na cadeia do aço, em posicionamento de produtos de baixo carbono. Essa cadeia contribui com as emissões numa escala relevante, 8%. Estou saindo com uma visão muito confortável de que a China não está recuando em nada nessa agenda de transição energética, descarbonização. Pelo contrário, estão acelerando. Meus clientes falam disso como prioridade deles e do governo.

Para a Vale é favorável porque nossa tese é descarbonização e nossos produtos se beneficiam disso. Estamos focando muito em minerais críticos. O aço vai continuar sendo produzido e precisamos encontrar rotas que não utilizam o carvão. Nas rotas mais limpas é preciso minério de mais alto teor. E a Vale é o ofertante de maior qualidade do mundo. Estamos investindo em níquel, já somos os maiores produtores do mundo ocidental.

Na China, o foco do governo é em inovação, até na indústria extrativista. O que a Vale tem a oferecer nessa área?

Quando se olha as nossas operações e a mineração do futuro, que vai ser 100% automatizada, a inovação vai ser fundamental. A tecnologia hoje está incorporada ao negócio da companhia. Circularidade é uma grande temática. Estamos caminhando para que 10% de nossa produção em 2030 sejam de minérios que temos em barragens.

A outra ponta é a inovação em produtos, como criar um minério de ferro que, quando usado na produção de aço, reduz a pegada de carbono, é muito estratégico. Depois de décadas de estudo, lançamos um produto chamado briquete verde, que potencialmente é uma revolução na indústria, substitui a pelota. Quando colocado no forno, ele reduz a geração de CO2. Temos 172 navios fazendo Brasil-mundo, China, Europa. E uma tecnologia chamada rotor sail, que aproveita a força dos ventos e reduz em 7% as emissões.

Não é nada que vai mudar o negócio da noite para o dia, mas são incrementos em tecnologia que vão melhorando a operação, reduzindo o risco, as emissões. Há muitas oportunidades, inclusive parcerias com empresas chinesas.

Como aproveitar o bom momento das relações Brasil-China para obter ganhos em transferência de tecnologia?

A questão dos minerais críticos se tornou relevante na discussão geopolítica mundial. E o Brasil talvez seja a maior potência em minerais críticos do mundo. Minério de ferro, cobre, terras raras. O petróleo do próximo século vão ser os minerais raros. Há aqui uma enorme pauta porque a China é grande demandante de minerais críticos para suas indústrias. Ao mesmo tempo, tem uma série de tecnologias que a gente pode aplicar até para trazer esses minerais ao mercado de forma mais rápida.

Como estão as relações da Vale com o governo chinês?

A relação é ótima. Nas reuniões que tive, com os ministérios do Comércio e da Inovação, a mensagem foi muito positiva, com esse alinhamento do Sul Global, do Brics. Existe um alinhamento estratégico de países buscando acelerar seu desenvolvimento econômico, uma relação de amizade, de parceria, tentando se ajudar e se complementar.

E com o governo brasileiro?

A relação está boa, nós somos um dos maiores investidores do Brasil e vamos continuar sendo. Acho que o que a gente quer fazer como companhia está muito alinhado com o que o governo brasileiro quer, investir, gerar emprego, renda, royalties.

AUTOMOTIVO

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Planos republicanos de eliminar quase todo o apoio federal a veículos elétricos (VE) podem prejudicar seriamente a indústria emergente, dizem especialistas da indústria automobilística, justo quando mais americanos estão considerando comprar um elétrico e as companhias de carros planejam grandes investimentos.

“Tudo o que está acontecendo politicamente não poderia ter acontecido em um momento pior do ponto de vista da adoção de VE”, disse Ed Kim, presidente e principal analista na firma de pesquisa de mercado automobilístico AutoPacific, em entrevista.

Encerrar os créditos fiscais federais para VE, enfraquecer as regras de poluição por escapamento e cortar o financiamento para estações de carregamento - como o presidente Donald Trump e republicanos no Congresso propuseram - desaceleraria as vendas de VE e desencadearia uma onda de fechamentos de fábricas e cancelamentos de investimentos, de acordo com pesquisadores de políticas energéticas e da indústria automobilística. Isso também levaria a emissões mais altas que aquecem o planeta.

A maior fonte de poluição por gases de efeito estufa nos Estados Unidos é o transporte - principalmente de carros leves e caminhões, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental. Especialistas dizem que a mudança de motores a gasolina e diesel para veículos elétricos é a melhor maneira de limitar os danos das mudanças climáticas, os quais são esperados para tornar as pessoas mais doentes, fazendas menos produtivas e países mais pobres se não forem controlados.

Essas medidas atrasariam, mas não impediriam, a transição gradual de carros e caminhões movidos a gasolina para VEs nos Estados Unidos. Mesmo sem qualquer suporte governamental, analistas dizem que os veículos elétricos continuarão a reduzir as vendas de carros movidos a gasolina. Mas o ponto de inflexão quando os VEs se tornarem mainstream no mercado de carros dos EUA está se afastando, dizem os especialistas, e poderia ter efeitos de longo alcance na economia e no ambiente.
Emissões aumentam, empregos diminuem

A administração Trump já sinalizou que vai eliminar as regulações de carbono na poluição de carros e caminhões, e republicanos no congresso estão considerando extinguir os créditos fiscais federais para americanos que compram ou alugam veículos elétricos.

Essas políticas por si só poderiam reduzir em 40% as vendas de VE nos EUA em 2030 e eliminar a necessidade de todas as fábricas de montagem de VE planejadas e colocar até metade das fábricas de VE existentes em risco de fechamento, de acordo com uma análise recente da Universidade de Princeton.

Entre um terço e dois terços das fábricas de baterias em funcionamento até o final deste ano estariam em risco de fechamento. A maioria dessas plantas está concentrada em distritos liderados por republicanos no Sul e Centro-Oeste.

“Se você arrancar o tapete de debaixo da indústria, as coisas vão desmoronar, e muitos desses investimentos serão cancelados”, disse Jesse Jenkins, professor assistente de engenharia na Universidade de Princeton e autor do relatório.

Montadoras já estavam recuando nos investimentos em VE em resposta às vendas mais lentas do que o esperado no ano passado.

A Tesla cancelou seus planos para um novo modelo de VE barato após uma queda nas vendas em 2024. E enquanto o CEO da Tesla, Elon Musk, lidera a demissão em massa de trabalhadores federais da administração Trump, manifestantes estão fazendo piquetes e, às vezes, atacando violentamente concessionárias da Tesla.

A General Motors - a segunda maior montadora de veículos elétricos dos EUA, que prometeu vender apenas veículos leves elétricos até 2035 - adiou planos para uma nova fábrica de VE, vendeu sua participação em uma das três fábricas de baterias que construiu com a LG e atrasou o lançamento de um novo Buick elétrico no ano passado.

Ford, Nissan e Volkswagen também cortaram gastos e adiaram ou cancelaram lançamentos de VEs, e Volvo e Mercedes-Benz abandonaram planos de vender apenas carros e caminhões elétricos até 2030.

Enquanto isso, Trump também congelou o financiamento para a construção de estações de carregamento através do programa de Infraestrutura de Veículo Elétrico Nacional (NEVI) e outros financiamentos de veículos elétricos através da Lei de Redução da Inflação e da Lei de Investimento em Infraestrutura e Empregos.

Se Trump e o Congresso abolirem permanentemente esse financiamento - além de encerrar os créditos fiscais para vendas, carregamento e fabricação de baterias de VE e bloquear a capacidade da Califórnia de estabelecer suas próprias regras de emissão de veículos - carros e caminhões emitiriam 49 milhões de toneladas extras de poluição de carbono em 2030, de acordo com uma análise recente separada da Universidade de Harvard. Isso é aproximadamente a quantidade de poluição que 115 usinas a gás emitem em um ano, de acordo com a EPA.

“Desacelerar a adoção de VE aumenta as emissões”, disse Elaine Buckberg, membro sênior do Instituto Salata de Clima e Sustentabilidade da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe da GM, acrescentando que isso torna mais difícil “adiar as mudanças climáticas e seus efeitos”.

Embora os dois relatórios considerem cenários ligeiramente diferentes, eles chegam a conclusões semelhantes: Jenkins prevê que até 2030, poderia haver 8,3 milhões de VEs e híbridos plug-in a menos nas estradas dos EUA do que haveria se as políticas federais de VE fossem mantidas, enquanto Buckberg prevê 9,9 milhões de VEs a menos em uso.

Nenhuma das análises levou em conta o impacto das tarifas, que se espera aumentar o preço da compra de um carro em milhares de dólares. É difícil prever o efeito na indústria de VE, disse Jenkins, em parte porque as ameaças de tarifas de Trump continuam mudando.

Preços mais altos provavelmente fariam os americanos pensar duas vezes antes de comprar qualquer tipo de carro novo - mas, como os VEs têm mais probabilidade de serem montados nos EUA do que os carros movidos a gasolina, eles podem não ser tão prejudicados pelas barreiras comerciais, disse Jenkins.

Barreiras comerciais existentes com a China - estabelecidas por Trump e aumentadas pelo ex-presidente Joe Biden - já estão mantendo os VEs chineses mais baratos fora das estradas americanas e aumentando o preço de se tornar elétrico.

Desviando da ‘curva S’

Países onde os VEs se popularizam - como Noruega, China e Islândia - geralmente seguem um padrão chamado de “curva S”. As vendas começam devagar, mas eventualmente atingem um ponto de inflexão e decolam depois que a indústria muda de alcançar um pequeno grupo de primeiros adotantes para entrar no mercado de massa.

Especialistas da indústria automobilística estão procurando sinais de que o mercado dos EUA está alcançando esse ponto de inflexão. No ano passado, VEs representaram 8,7% das vendas de carros novos, de acordo com a Kelley Blue Book. É difícil dizer se o mercado estava pronto para decolar: embora as vendas de VEs tenham aumentado constantemente, seu momento desacelerou em 2024.

De qualquer forma, especialistas dizem que esse ponto de inflexão estará mais distante nos Estados Unidos se o governo federal retirar seu apoio à indústria. Líderes em VE como Noruega e China ajudaram suas indústrias de carros elétricos a decolar com subsídios e incentivos.

“É claro, baseado nas evidências, que não há ponto de inflexão, nenhum crescimento de mercado significativo, sem um suporte político forte”, disse Gil Tal, diretor do Centro de Pesquisa de Veículo Elétrico da Universidade da Califórnia em Davis. Ele adicionou que as vendas de VE nos EUA provavelmente continuarão a crescer “por causa do enorme investimento feito nos últimos anos, mas não vai ser uma curva S de forma alguma”.

Eliminar o crédito fiscal federal para comprar ou alugar VEs seria o golpe mais significativo para a indústria, de acordo com a análise de Harvard. O crédito é especialmente importante enquanto os vendedores de VE tentam entrar no mercado de massa, onde os compradores de carros são mais sensíveis ao preço.

“Esse é o momento em que você precisa de incentivos mais fortes”, disse Jessica Caldwell, chefe de insights na Edmunds, um site de compras e avaliações de carros. Os primeiros adotantes comprando VEs de luxo podem estar dispostos a pagar preços mais altos, ela disse, “mas a segunda onda de compradores precisa de mais convencimento”.

Infomoney - SP   24/03/2025

A Ferrari está atraindo uma nova geração de consumidores. Segundo o CEO Benedetto Vigna, 40% dos novos compradores da marca têm menos de 40 anos. O dado representa um avanço expressivo em relação aos 30% registrados há 18 meses.

“É uma conquista do nosso time”, afirmou Vigna em entrevista à CNBC durante um evento realizado em Singapura nesta semana. A fabricante segue com uma estratégia de produção limitada para preservar a exclusividade da marca. Cerca de 75% das vendas ainda são para clientes já existentes.

Mesmo diante da crescente demanda, o executivo reforçou que o tempo de espera — que pode passar de dois anos — faz parte da experiência Ferrari. Ele citou casos de compradores ansiosos, como um cliente de 78 anos e outro de 37 que queria o carro antes dos 40. “Disse a ele: ‘Você receberá aos 39’”, contou.
Vigna também confirmou que a Ferrari lançará seu primeiro carro totalmente elétrico em 9 de outubro. O modelo será produzido na Itália e é um dos seis lançamentos previstos para 2025. A montadora aposta em três linhas de produto: combustão, híbrido e elétrico.

“Sabemos que alguns clientes não querem um Ferrari elétrico, mas outros só querem um EV”, disse o CEO.

CONSTRUÇÃO CIVIL

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Na quarta-feira, 19, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou a taxa básica de juros (Selic) em um ponto porcentual, de 13,25% para 14,25% ao ano, seguindo o plano de voo para conter a inflação sinalizado em dezembro e reforçado na reunião anterior, em janeiro.

“Não tem animação para o Brasil no longo prazo. Um dia está fácil, outro está difícil. Nós estamos animados com a nossa grade de lançamentos, mas vamos ver como fica o mercado”, declarou, durante teleconferência com investidores e analistas. “Até agora, não sentimos diferença do macro (nos negócios da empresa)”, completou.

O empresário acrescentou que as compras de terrenos continuarão acontecendo, sempre com análises caso a caso. “Vamos continuar comprando todos os terrenos que achamos que são bons, mas tomando cuidado com o macro.”

No fim de 2024, o estoque de terrenos da Cyrela tinha potencial para lançamento de projetos com vendas totais estimadas de R$ 18,4 bilhões (parte Cyrela). Um ano antes, estava em R$ 24,1 bilhões.

O diretor financeiro e de relações com investidores, Miguel Mickelberg, disse que a subida de juro foi percebida tanto nos financiamentos dos compradores de imóveis quanto das obras. Isso, porém, não tende a mudar a rota da companhia em seus lançamentos. “A alta de juros não vai impactar a nossa estratégia e nosso apetite. Temos um balanço bastante sólido e alternativas de financiamento no mercado de capitais”, afirmou.

No caso dos compradores de imóveis, não foram sentidos efeitos em termos de inadimplência, nem distratos. “Vamos acompanhar ao longo do ano.”

A Cyrela Brazil Realty apresentou lucro líquido de R$ 497 milhões no quarto trimestre de 2024, aumento de 100% em relação ao mesmo período de 2023, de acordo com balanço publicado na quinta-feira, 20. No acumulado de 2024, a incorporadora obteve lucro líquido de R$ 1,649 bilhão, alta de 75% ante 2023. O aumento está relacionado à expansão dos lançamentos e das vendas no acumulado dos últimos trimestres, com incremento da receita.

Globo Online - RJ   24/03/2025

Preocupado com a perda de popularidade, o governo Lula acaba de ampliar o teto de financiamento do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) para famílias com renda bruta mensal entre R$ 8 mil e R$ 12 mil. A medida representa uma contradição com o objetivo original do programa, lançado para atender à população de baixa renda. Pode-se argumentar que, diante de um déficit habitacional de 6 milhões de moradias, toda ajuda é bem-vinda. Mas o MCMV é a política habitacional errada para as necessidades e oportunidades brasileiras.

Ele herdou distorções dos antigos programas de moradia popular. A principal é incentivar a construção de novas moradias a baixo custo, em geral conjuntos habitacionais em periferias sem infraestrutura de serviços e transportes. O governo fica contente com os números de casas entregues e as imagens para propaganda. As construtoras ficam contentes com os financiamentos generosos e os negócios em expansão. E os beneficiados? Bem, estes terão de arcar com alto custo de transporte, numa rotina desgastante que consome horas dentro de ônibus e trens, além de enfrentar a violência e as demais mazelas de um Estado ausente.

Urbanistas há tempos criticam a expansão horizontal das cidades, que exige mais investimento de infraestrutura, cria riscos para segurança e um sem-número de custos indiretos. Ao mesmo tempo, há dezenas de regiões centrais abandonadas, em decadência, cujos imóveis, muitos públicos, poderiam ser reformados para habitação. O mercado de retrofit pode ser menos atraente às incorporadoras, mas atenderia de modo mais barato às necessidades habitacionais das faixas de renda mais baixas. Só que financiamentos do MCMV a reformas foram reduzidos.

Entre as próprias construtoras há quem veja a requalificação das áreas centrais como oportunidade. Uma questão básica é o envolvimento dos governos para que as normas, em especial tributárias, tornem o investimento atraente à iniciativa privada. O Recife, com apoio do Ministério das Cidades e da Caixa, desenvolve parcerias público-privadas para reformar prédios da União. Outras cidades e estados mostram interesse no modelo. O Ministério das Cidades selecionou 654 imóveis para restaurar em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Manaus, Goiânia, Porto Alegre e João Pessoa.

A Prefeitura paulistana criou em 2021 o Programa Requalifica Centro, com o objetivo de levar 220 mil moradores à região em dez anos. A intenção é que a iniciativa se perpetue, independentemente da troca de prefeitos. O tratamento tributário especial é extenso: perdão de dívidas de IPTU; isenção por três anos para o edifício reformado; redução da alíquota do ISS para projetos e obras; isenção do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis.

No Rio, chegou a haver 4 mil endereços vazios no Centro. Por muitos anos a legislação proibiu construções na região. Com o programa municipal Reviver Centro, o quadro mudou. Segundo o Sindicato da Construção Civil, hoje o maior volume de lançamentos e de vendas ocorre no Centro e na Zona Portuária em revitalização. Falta adensar o comércio, mas o mais importante, o retorno aos Centros, parece irreversível. Lojas e serviços vêm em seguida. A reurbanização das áreas centrais merece bem mais atenção do governo federal do que medidas de fundo eleitoreiro, como a extensão dos financiamentos a novos imóveis pelo MCMV.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

O governo Lula finaliza os detalhes para lançar uma nova linha de crédito para pequenas reformas, que tem o nome provisório de Melhorias, e uma nova faixa do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, voltada para famílias de classe média com renda de até R$ 12 mil mensais.

Os dois programas terão R$ 18 bilhões em recursos, que serão remanejados de outras faixas do Minha Casa Minha Vida para bancar as novas modalidades. Por sua vez, as faixas existentes hoje passarão a ser financiadas pelo Fundo Social do pré-sal, verba que já foi reservada no Orçamento deste ano, aprovado nesta quinta-feira, 20.

A nova linha de crédito para pequenas reformas contará com R$ 3 bilhões e a taxa de juros deverá ser de 3% ao ano. A ideia é que, com recursos do microfinanciamento, as pessoas possam fazer melhorias nos imóveis, como pinturas, troca de portão e outras reparações. O programa deve mirar quem tem casa própria, mas o governo também estuda a possibilidade de incluir pessoas que moram de aluguel, segundo apurou a reportagem.

O público atendido por esta linha de crédito deve ser o mesmo da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, de renda até R$ 2.640 mensais. Mesmo quem é trabalhador informal ou pretende usar o empréstimo para reformar uma casa que não é do programa, poderá acessá-lo.

A outra novidade é a nova faixa de financiamento do programa, voltada para famílias de classe média, com renda de até R$ 12 mil – hoje, as famílias atendidas devem ter renda de, no máximo, R$ 8 mil.

A medida é mais uma iniciativa de o governo Lula se aproximar da classe média, principalmente a chamada classe média baixa ou classe C, em momento de baixa popularidade.

A nova linha começou a ser costurada com o setor privado há pouco mais de um mês, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com os principais executivos das quatro construtoras que atuam no programa – MRV, Tenda, Direcional e Pacaembu – no Palácio da Alvorada, e prometeu expandir o programa.

A expectativa de auxiliares de Lula neste terceiro mandato é entregar 2 milhões de unidades habitacionais até o fim de 2026, quando o presidente possivelmente tentará a reeleição. Com a nova linha de crédito e a injeção de recursos, a projeção é que este número possa chegar a 2,5 milhões de unidades.

Uma reunião nesta quinta-feira, 20, na Casa Civil definiu que, nessa nova faixa, os imóveis poderão custar até R$ 500 mil – acima do limite atual do Minha Casa Minha Casa, de R$ 350 mil.

A taxa de juros deve ficar em 10,5% ao ano, também acima da praticada atualmente no programa, que varia no intervalo de 4% a 8,16% a depender da renda da família e da origem dos recursos (se o tomador do empréstimo usa recursos do FGTS, por exemplo). O porcentual, no entanto, é inferior às taxas de mercado, que hoje giram em torno de 12% ao ano.

Os juros ficarão acima dos praticados no atual programa porque a nova linha terá origens diferentes de recursos: parte dos empréstimos serão dados com recursos do FGTS; outra parte, pelos recursos que estão nos caixas dos bancos e são derivados de aplicações na poupança (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo). Os bancos privados poderão operar financiamentos nessa linha, mas o governo avalia que a Caixa será prevalente neste mercado.

A expectativa é de que a nova linha seja divulgada em abril. As equipes técnicas deverão apresentar os detalhes ao presidente Lula após a viagem dele ao Japão, na próxima semana.

 

Valor - SP   24/03/2025

Aproximadamente R$ 2 bilhões serão prioritariamente aplicados na urbanização de Paraisópolis e comunidades do entorno, na zona sul da cidade

Principal projeto de urbanização com dinheiro privado da capital paulista, a Operação Urbana Faria Lima teve a sua revisão regulamentada por um decreto publicado nesta sexta-feira (21) pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB). Com a regulamentação, o setor imobiliário poderá comprar títulos que dão direito à ampliação, construção ou reconstrução de edifícios na região da avenida que nas últimas décadas se transformou em símbolo do mercado financeiro do país.

Dos cerca de R$ 3 bilhões previstos para serem arrecadados, aproximadamente R$ 2 bilhões serão prioritariamente aplicados na urbanização de Paraisópolis e comunidades do entorno, na zona sul da cidade.

Outras obras de infraestrutura estão previstas na operação para melhorar a infraestrutura no próprio entorno da avenida Brigadeiro Faria Lima. Projetos desse tipo têm como regra a aplicação dos recursos arrecadados em melhorias viárias e de serviços públicos para compensar consequências da expansão imobiliária.

Entre as intervenções pretendidas está uma obra para desafogar o tráfego de veículos na região prevista há quase 40 anos. É o boulevard Juscelino Kubitschek, uma passagem subterrânea para ligar dois túneis que ficam sob o rio Pinheiros – presidente Jânio Quadros e Sebastião Camargo – ao complexo Viário Ayrton Senna, que passa sob o parque Ibirapuera.

A ideia de fazer um túnel abaixo da avenida Juscelino Kubitschek é da segunda metade dos anos 1980, na gestão de Jânio Quadros (1917-1992). A obra chegou a ter início, mas foi interrompida e aterrada por Luiza Erundina (na época no PT, hoje no PSOL), que assumiu o cargo em 1989.

Considerando o histórico de operações urbanas financeiramente deficitárias na capital, um integrante da gestão Nunes disse à Folha que o recurso arrecadado dificilmente será suficiente para realizar a obra e a administração terá de captar investimentos de outras fontes.

A regulamentação da operação Faria Lima também não encerra a principal polêmica sobre a revisão do projeto realizada pela Câmara. A regularização do edifício de alto padrão de 23 pavimentos construído sem alvará da prefeitura continua suspensa pela Justiça.

O artigo da lei aprovada pelo Legislativo que permitiria a adequação do prédio se tornou alvo de uma ação do Ministério Público. Ao avaliar o caso, o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu provisoriamente a validade do dispositivo.

Enquanto a decisão liminar estiver valendo, o prédio não pode ser regularizado com base na nova lei, informou a Secretaria de Urbanismo da gestão Nunes. Em 2023, a prefeitura pediu judicialmente a demolição da construção, o que foi negado pela Justiça.

Regularização fundiária em favelas

Quanto às demais intervenções, a prefeitura informou manter alinhamento com diversas secretarias para definir as melhores estratégias, mas destacou que o foco é o complexo Paraisópolis.

Em nota, a administração destacou que, no último dia 11 de março de 2025, o Conselho Gestor da Operação Urbana Consorciada Faria Lima aprovou a regularização fundiária nas favelas Paraisópolis, Porto Seguro e Jardim Colombo, além de projetos e obras de infraestrutura nessas comunidades e implantação de equipamentos culturais e esportivos.

Outras obras previstas na resolução do conselho são extensão da hidrovia do rio Pinheiros, incluindo desapropriações e compra de embarcações; reforma do Largo da Batata, prolongamento da avenida Brigadeiro Faria Lima e alça de ligação com a avenida dos Bandeirantes.

Como a operação urbana arrecada e aplica dinheiro

Investimentos em infraestrutura na área de operação Faria Lima são obtidos por meio de títulos públicos emitidos pela prefeitura e negociados no mercado financeiro. Esses instrumentos são identificados pela sigla Cepac (Certificado de Potencial Adicional de Construção).

Nas áreas de operações urbanas, as Cepacs substituem a outorga onerosa, taxa cobrada pela prefeitura para permitir construção superior à área do lote. Sem comprar os títulos, não é possível erguer ou ampliar prédios na região da Faria Lima.

O dinheiro arrecadado com leilões de títulos deve ser aplicado em obras de infraestrutura no eixo da operação ou em uma extensão desse perímetro. Essa expansão foi feita para que verbas fossem para a urbanização de Paraisópolis, a cinco quilômetros da Faria Lima.

Estima-se que 250 mil metros quadrados em construções ainda possam ser liberados na área da operação, o que corresponde aos cerca de R$ 3 bilhões esperados com a venda de certificados.

É com foco nesses recursos que Câmara e prefeitura revisaram a operação. A avaliação no mercado era de que as vantagens oferecidas pelas regras aprovadas na operação de 1995 ficaram desvantajosas se comparadas às vigentes em legislações mais recentes, como o Plano Diretor instituído em 2014 e revisado em 2023.

Ao revisar a operação, vereadores e prefeito permitiram a construção de prédios maiores e isso pode tornar atraente até mesmo a demolição de edifícios atuais para que novos sejam construído.

Após a regulamentação realizada na semana passada, a realização de um novo leilão de Cepacs ainda depende da prefeitura mandar para a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) um prospecto com detalhes sobre a operação envolvendo esses títulos. Estima-se que essa etapa ainda demore cerca de três meses.

FERROVIÁRIO

A Tribuna - SP   24/03/2025

O Trem Intercidades (TIC) Eixo Sul, que deverá ligar a Baixada Santista e o restante do litoral de São Paulo à Capital, terá custo de R$ 15 bilhões e deverá ser executado em parceria com a iniciativa privada. De acordo com a Secretaria Estadual de Parcerias em Investimentos (SPI), o projeto foi qualificado em junho de 2024 pela pasta, porém ainda precisa passar por algumas etapas de estudo, audiência pública, edital, leilão e contrato, antes que possa ser efetivamente implementado.

Ainda de acordo com o governo de São Paulo, o trajeto pode variar entre 80 e 130 quilômetros de extensão, e ter duração de viagem prevista em média de 90 minutos, além de beneficiar nove municípios e 1,8 milhão de pessoas. Sua implantação também impactará diretamente no desafogamento do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI).

Trajetos
Estações Pinheiros, Santos-Imigrantes e Brás são as opções de chegada do trem. Segundo o governo, as três possibilidades estão em estudos.

Quanto aos trajetos para o litoral de São Paulo, há três possibilidades. O primeiro utilizaria a Linha 10 - Turquesa da CPTM até Rio Grande da Serra, seguindo pela ferrovia já existente até Paranapiacaba. A descida da Serra do Mar ocorreria pelo sistema cremalheira, originalmente projetado para transporte de carga e passageiros, aproveitando a infraestrutura ferroviária existente para ligar o planalto ao litoral.

Esse percurso se baseia em uma rota ferroviária tradicional, garantindo um trajeto já consolidado, embora com desafios técnicos na adaptação para novos serviços.

O segundo trajeto partiria da Zona Sul de São Paulo, com duas possibilidades iniciais: seguir pela Rodovia dos Imigrantes ou utilizar a Linha 9 - Esmeralda, conectando-se a uma antiga ferrovia até Parelheiros. A descida da serra ocorreria por um trecho estudado para a construção de uma rodovia, atravessando os vales dos rios Capivari, Branquinho, Aguapeú e Branco, até alcançar a ferrovia Santos-Cajati.

Esse caminho exigiria obras de infraestrutura como túneis ou cortes na montanha, mas poderia facilitar a conexão direta entre a capital e o litoral.

Andamento
Segundo as informações divulgadas no site da Secretaria de Parcerias e Investimentos (SPI), o projeto pode ter leilão e assinatura do contrato em 2027.

Globo Online - RJ   24/03/2025

A ex-presidente Dilma Rousseff confirmou neste domingo que ficará mais cinco anos à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, também conhecido como “banco do Brics”). Dilma assumiu em março de 2023 a presidência do banco sediado em Xangai e seu mandato atual termina em julho deste ano. Mas foi estendido “por unanimidade” para um período adicional, segundo ela.

— Fui reeleita. Eles indicaram e o ‘board’ aprovou por unanimidade — afirmou a ex-presidente, durante um evento realizado em Pequim.

Após dois anos na presidência do NBD, Dilma fez um balanço positivo de sua gestão, afirmando que quando ela assumiu o cargo “esse banco não tomava empréstimos havia 16 meses. Agora estamos bem”.

Nesse período, Dilma também foi um fator importante na aproximação política entre o Brasil e a China, estando ativamente envolvida no plano de promover “sinergias” entre projetos econômicos dos dois países. A ideia foi lançada oficialmente em novembro, durante a visita ao Brasil do presidente chinês, Xi Jinping.

Para decepção de Pequim, a visita não produziu a adesão do Brasil à iniciativa Cinturão e Rota, o megaprojeto chinês de infraestrutura da China conhecido como “a Nova Rota da Seda”. Em vez disso, ficou decidido que os dois países buscariam formas de cooperar em projetos conjuntos, as tais “sinergias”, com potencial de investimento chinês no Brasil. Para isso, foram criadas duas forças-tarefa que deveriam apresentar propostas num prazo de 60 dias.

Mais de quatro meses depois, porém, ainda não há resultados conhecidos. Uma missão da Casa Civil, que coordena as negociações pelo lado brasileiro, tinha uma visita a Pequim programada para este mês a fim de fechar algumas parcerias.

Entre os projetos discutidos, há alguns na área financeira que estão avançados, segundo fontes diplomáticas. Um dos mais esperados no setor de infraestrutura é o da ferrovia transoceânica. Sonho antigo, a linha serviria para escoar a produção agrícola brasileira pelo Pacífico, cortando custos para a exportação de produtos brasileiros a importantes mercados da Ásia, principalmente o chinês.

Segundo Dilma, é preciso entender que são parcerias de longo prazo, que não se concretizam “assim, de uma hora para outra”. Dito isso, ela não deixou margem para dúvida de que a ferrovia está entre os projetos que vão avançar.

— Certeza absoluta — afirmou.

Dilma foi uma das presenças ilustres do Fórum de Desenvolvimento da China, evento que foi aberto neste domingo pelo premier do país, Li Qiang. Num discurso lido em inglês, Dilma foi efusiva ao elogiar o modelo de desenvolvimento da China.

Questionada sobre a ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de aplicar tarifas de importação de até 100% aos países do Brics caso o grupo decida estabelecer uma moeda alternativa ao dólar, ela devolveu a pergunta.

— Ele vai taxar a União Europeia? O euro é uma moeda alternativa. Mas acho que o Brics não vai fazer isso — disse ela, acrescentando qual deve ser o foco financeiro da cúpula do Brics em julho. — Acho que vão focar muito em investimento, em plataformas de investimento. Acho que fundamentalmente esse é o foco. Agora, daqui até lá pode ter outro, não posso garantir.

NAVAL

Veja - SP   24/03/2025

O Governo de Santa Catarina assinou, nesta sexta, o contrato para a dragagem e aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga, em uma parceria inédita entre os portos de São Francisco do Sul e Itapoá.

Com investimento de 324 milhões de reais, a obra permitirá a atracação de navios de até 366 metros, aumentando a capacidade do complexo portuário.

“Essa parceria coloca Santa Catarina na vanguarda da infraestrutura portuária, permitindo a chegada de navios maiores e impulsionando nossa economia”, diz o governador Jorginho Mello.

O financiamento será viabilizado por uma PPP, com aporte de 24 milhões de reais do Porto de São Francisco e 300 milhões de reais do Porto Itapoá, valor que será compensado com descontos tarifários ao longo de 12 anos.

Pela primeira vez no Brasil, parte dos 12,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos retirados será usada para ampliar a faixa de areia da orla de Itapoá, combatendo a erosão marítima e fortalecendo o turismo.

Também foi lançado o edital para escolha da empresa que executará a obra, com abertura de propostas em junho. As obras devem começar em 2025 e ser concluídas até 2026.

Os portos da Baía da Babitonga respondem por mais de 60% da movimentação de cargas de Santa Catarina. Com a modernização, o estado reforça sua posição no comércio exterior, garantindo mais eficiência e competitividade.

A Tribuna - SP   24/03/2025

Com o aprofundamento do canal de navegação da Baía de Babitonga, que dá acesso ao porto público de São Francisco do Sul e ao porto privado de Itapoá, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), acredita que os complexos daquele estado ficarão tão competitivos quanto o Porto de Santos para receber navios.

“Isso é um impacto extraordinário na economia. Vamos proporcionar a chegada de navios de 366 metros, trazendo muito mais contêineres. Isso é ganho para todo mundo: para o transportador, para quem vendeu, para a cidade, é aumento de emprego”, disse o governador.

Ele participou nesta sexta-feira (21) da assinatura da parceria público-privada (PPP) entre Itapoá e São Francisco do Sul para aprofundamento dragagem de 14 para 16 metros. Este último é de gestão estadual por meio da SCPar. Itapoá arcará com R$ 300 milhões, mas São Francisco dará contrapartida de R$ 24 milhões para o projeto.

Para o secretário de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina, Beto Martins. o estado entra na vanguarda com a parceria. “O Porto de Paranaguá está discutindo a privatização do canal de acesso. Se ficarmos esperando que o Governo Federal mande recursos, que sobre orçamento, nós vamos esperar mais dez anos e perder as cargas e os navios que estão aqui hoje. Todas as companhias marítimas estão aumentando os seus navios e vão precisar de portos dotados da tecnologia que vai ser implantada aqui”, afirmou.

O diretor do Departamento de Novas Outorgas e Políticas Regulatórias e Portuárias da Secretaria Nacional de Portos, Bruno Neri da Silva, destacou que não há assimetria entre público e privado e que o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) participou da construção dessa proposta.

Os sedimentos retirados da Baía da Babitonga serão usados no engordamento da faixa de areia das praias de Itapoá. Ao todo, serão removidos do canal 7 milhões de metros cúbicos de material. “O alargamento da nossa praia, entre 40 e 90 metros, vai dar uma extensão de nove quilômetros”, disse o prefeito de Itapoá, Jeferson Rubens Garcia (MDB).

Globo Online - RJ   24/03/2025

O governo federal pretende publicar nos próximos dias um decreto sobre a “BR do Mar”, programa desenhado para ampliar o transporte de cargas marítimas ao longo da costa, conhecido como cabotagem. O dispositivo legal vai prever incentivos à contratação de “embarcações verdes”, com critérios de sustentabilidade para o setor, que é predominado pelo transporte de petróleo em plataformas marítimas.

Em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, foi sancionada a lei que instituiu o programa de incentivo à cabotagem no Brasil. Entre outros pontos, a medida flexibilizou o afretamento de embarcações estrangeiras para serem usadas no transporte de cargas na cabotagem brasileira e ampliar as frotas no país.

O texto da lei definiu que algumas modalidades de contratação deveriam ser regularizadas por meio de decreto. Elaborado pelo Ministério de Portos e Aeroportos, a redação do documento já foi concluída e aguarda apenas a assinatura de Lula.

A pedido do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, o texto deve trazer critérios de sustentabilidade com incentivos à contratação de “embarcações verdes”.

Por exemplo, para uma embarcação petroleira, que normalmente é contratada a longo prazo, terá de respeitar regras de sustentabilidade, explica o secretário de Hidrovias e Navegação, Dino Antunes.

— A embarcação tem que ser sustentável porque o cara vai trazer uma embarcação que vai ficar um tempão aqui, então criamos dispositivos para que isso aconteça — explica o secretário

Segundo ele, as definições do que será um “embarcação verde” ainda serão definidas por meio de uma portaria do governo, que será publicada após o decreto de regularização do setor:

— Vamos fazer uma consulta pública, e colocar o que achamos que é esta definição, e a partir disso teremos um diálogo com o mercado e agentes do setor para entender a melhor forma de fazer.

Segundo dados da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), o transporte marítimo de cargas entre portos nacionais, que cresceu 20% entre 2023 e 2024, chegando a 1,55 milhão de contêineres movimentados no ano passado. A atividade petroleira é essencial para o setor, sendo responsável por 58% do total de toneladas movimentadas pela cabotagem no ano passado.

Entidades do setor, como a Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), acompanham a elaboração do decreto com atenção especial às regras de sustentabilidade. A associação manifesta preocupação acerca de critérios “restritivos” podem ser impostos pela definição do que será uma embarcação verde.

“Entendemos que há compromissos que o Brasil deve atender e se forem impostas regras restritivas à cabotagem com o uso de navios verdes sem cuidar do equilíbrio da matriz de transportes, arriscamos estar fazendo com que a opção fique no modal mais poluente”, escreveu a associação em nota.

O decreto trará dispositivos para permitir que navios de bandeira estrangeira possam operar na cabotagem por um prazo mais longo. Como funciona com a regra vigente, essas embarcações, no entanto, devem operar com tripulação brasileira. A Abac defende que as empresas que já operam na cabotagem sejam privilegiadas neste processo de regulamentação.

“Importante neste decreto deverá ser que somente empresas previamente autorizadas a operar na cabotagem, com embarcações adequadas, sejam as que possam ter estes navios operando na bandeira estrangeira na cabotagem”, diz em nota.

PETROLÍFERO

Valor - SP   24/03/2025

O governo está atuando para viabilizar o leilão, considerando três possíveis cenários de redução de preço

O governo trabalha para viabilizar o primeiro leilão de oferta de gás natural do pré-sal contando com três cenários de redução de preço. Um deles aponta para um corte de até 70% sobre o valor atualmente praticado pela Pré-sal Petróleo S.A. (PPSA) — estatal que representa a União nos contratos de partilha. A estratégia envolve a definição de um preço de partida, que pode aumentar a depender do nível da disputa pelo produto a ser entregue na costa brasileira.

Com a PPSA, a discussão evolui no sentido de realizar o leilão ainda em 2025 com um preço capaz de oferecer competitividade para a indústria nacional. Os valores são referentes ao gás da Bacia de Santos entregue em terra firme — ou seja, após sair da plataforma, passar por gasoduto de escoamento em alto mar e receber tratamento na unidade de processamento (UPGN), no litoral de São Paulo.

Atualmente, o preço médio do gás natural fornecido após a UPGN está em US$ 14,50 por milhão de BTU (unidade térmica britânica), conforme informou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, esta semana em evento do setor. O gás da União é vendido a US$ 10,74 por milhão de BTU, embora a PPSA cobre apenas US$ 2,16 por milhão de BTU pelo produto extraído na boca do poço — outros US$ 8,58 são de tarifas e encargos contratuais cobrados por quem opera os sistemas de escoamento e processamento, a Petrobras.

Atualmente, o gás natural da União extraído da Bacia de Santos é comercializado pela PPSA com a própria Petrobras. Portanto, o alto custo de uso rede dos gasodutos de escoamento e processamento acaba não sendo sentido pela petroleira, que “paga de um lado, mas recebe de outro”, conforme descreveu uma fonte oficial. Como o preço para o consumidor é elevado, a companhia consegue obter uma margem de lucro expressiva.

As possibilidades de preços mais baixos para o leilão estão no cenário-base (ou intermediário) com o preço do gás natural de US$ 4,18 por milhão de BTU, no cenário conservador de US$ 5,83 milhão de BTU e no cenário otimista de US$ 3,36 por milhão de BTU. Este último representa uma redução de quase 70% (68,71%) sobre o preço atual praticado pela União.

A PPSA usará os cálculos apresentados esta semana em nota técnica pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para buscar a redução de preço da molécula de gás esperada para o leilão, conforme o Valor apurou.

Sem aprofundar sobre a estratégia do governo, Silveira defendeu na última terça-feira (18) que será preciso reduzir os preços cobrados pelo uso da infraestrutura de escoamento e processamento, além de “enfrentar as cláusulas abusivas” desses mesmos contratos, que seriam responsáveis por encarecer o gás nacional.

Uma fonte oficial informou ao Valor que os cálculos apresentados pela EPE na nota técnica serão usados pela PPSA para confrontar a Petrobras. A petroleira defende a manutenção dos atuais patamares de preços e condições contratuais. A companhia controla 100% das UPGNs e detém participação majoritária nos gasodutos de escoamento (Rota 1, 2 e 3) que operam com o gás extraído da Bacia de Santos.

Se houver divergência entre as duas estatais, a análise do processo pode subir para o Comitê de Monitoramento do Gás Natural e ser arbitrado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Na avaliação do governo, a nota técnica da EPE, que faz simulações de preço de acesso à infraestrutura de gás baseada em metodologias internacionais, também servirá de base para instrução dos processos e tomada de decisão por parte da agência.

As cláusulas classificadas como abusivas pelo ministro também fazem parte de outra frente de negociação entre PPSA e Petrobras. O Valor apurou que a petroleira já cedeu na negociação sobre a suposta indisponibilidade da infraestrutura de escoamento por atingir a capacidade máxima. Ficou definido que será atualizada o estudo de 2019 que apontava um maior volume de gás nas Rotas 1, 2 e 3, em relação ao que de fato está sendo transportado.

A Petrobras tem exigido garantias financeiras que não caberiam à PPSA no acesso ao sistema de escoamento, além de cobrar penalidades pesadas referentes à qualidade do gás natural que deveriam ser endereçadas, para fazer sentido, a quem produz o combustível.

Outra queixa está relacionada à cobrança da tarifa de escoamento quando a operação é interrompida em razão de alguma alegação técnica da UPGN, como manutenção preventiva. É comum, segundo relato de uma fonte do governo, ainda aplicar multa calculada com o acréscimo de 50% sobre a tarifa.

Ao Valor, o diretor de gás natural da Abrace Energia, Adrianno Lorenzon, disse que a nota técnica da EPE representa um avanço no debate sobre a necessidade de redução do preço de acesso a infraestruturas essenciais desse segmento. Para ele, além de ajudar nas negociações da PPSA com a Petrobras, serve de “input” para a ANP avançar com a regulação do mercado.

“Hoje, o setor convive com a máxima de, se o gás natural no Brasil fosse oferecido a custo zero — ou seja, de graça! — ainda assim sairia caro para consumidor”, destacou Lorenzon. A Abrace Energia representa gigantes da indústria nacional que respondem por boa parte do consumo de energia do país.

Lorenzon explica que, no Brasil, o preço final do gás só oferece ganhos de competitividade para a indústria entre US$ 7 a US$ 8 por milhão de BTU. A entrega entrega do produto na porta da fábrica envolve a somatória de todos os custos acumulados até a UPGN, incluindo o pagamento pelos serviços de gasoduto terrestres e distribuição local oferecido por uma empresa diferente em cada Estado, com valores médios de US$ 2 e US$ 3 por milhão de BTU, respectivamente.

Sobre o leilão proposto pela PPSA, o executivo da entidade concorda que os dois principais desafios para oferecer um preço melhor estão relacionados à conseguir fazer a Petrobras ceder nas negociações de preço, onde a companhia costuma “jogar duro” com os agente de mercado, e reverter as cláusulas contratuais, consideradas “muito complexas” e “bem amarradas”.

“A Petrobras acaba jogando contra o principal objetivo da PPSA neste mercado, que é maximizar o retorno financeiro para a União com a venda de gás natural”, ressaltou Lorenzon.

O sucesso do leilão da PPSA, disse o diretor da Abrace Energia, tende a beneficiar não só o polo industrial de São Paulo, localizado próximo aos pontos de entrega de gás da União, após as UPGNs. Ele explicou que a malha de transporte de gasodutos, que opera em terra, funciona em modelo de sistema integrado. Isso, disse ele, garante que a indústria instalada em outros Estados, como Minas Gerais e Ceará, possa ser beneficiada pelo gás negociado no leilão.

Dados do Comitê de Monitoramento do Gás Natural, obtidos pelo Valor, indicam que a oferta de gás da União deve alcançar 300 mil metros cúbicos por dia (m3/dia) em 2026. Se confirmado leilão este ano, os primeiros volumes comercializados serão entregues a partir de 2027, quando a estatal projeta entregar 1,1 milhão de m3/dia. O governo prevê um período de oito anos com oferta em 3 milhões de m3/dia, com pico de 3,4 milhões de m3/dia em 2031.

Procurada, a Petrobras informou que não vai comentar o assunto.

Petro Notícias - SP   24/03/2025

A Shell anunciou nesta sexta-feira (21) que, finalmente, após vários anos, tomou a Decisão Final de Investimento para Gato do Mato, um projeto em águas profundas na área do pré-sal da Bacia de Santos. A empresa prevê a instalação de um navio-plataforma (FPSO) com capacidade para produzir até 120 mil barris de petróleo por dia. O volume de recursos recuperáveis do campo é estimado em 370 milhões de barris, com expectativa de início da produção em 2029.

“Gato do Mato é um exemplo de nosso contínuo investimento em projetos cada vez mais eficientes“, destacou a diretora de Gás Integrado e Upstream da Shell, Zoë Yujnovich. “O projeto contribui para manter a produção estável de líquidos em nosso negócio Upstream e expande nossa liderança, enquanto seguimos trabalhando para atender às necessidades energéticas do mundo no futuro“, disse.

No início das operações, a Shell prevê a reinjeção de gás natural no reservatório para manutenção da pressão. No futuro, há a possibilidade de exportação desse gás para instalações em terra. Os volumes estimados de reservas recuperáveis seguem o critério P50 do Sistema de Classificação de Recursos Petrolíferos da Society of Petroleum Engineers, o que significa que há 50% de probabilidade de a produção ser maior ou menor do que o previsto.

Gato do Mato se estende por dois blocos contíguos: o BM-S-54, adquirido no já distante ano de 2005, e o Sul de Gato do Mato, obtido por meio de um contrato de partilha de produção em 2017. O campo está na costa do Rio de Janeiro, em águas profundas que variam entre 1.750 e 2.050 metros. O bloco é operado pela Shell (50%), em consórcio com Ecopetrol (30%) e TotalEnergies (20%). A Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), empresa estatal, atua como gestora do contrato de partilha de produção.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

Entre as maiores empresas de energia do mundo, a francesa TotalEnergies encara o Brasil como praça estratégica, a ponto de seu presidente global, Patrick Pouyanné, afirmar não ter limites para investimentos no País. Há uma década no cargo, o francês de 61 anos falou com exclusividade ao Estadão/Broadcast em um hotel da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Bem-humorado, disse ter voltado à cidade menos de seis meses depois da última visita em função do carnaval. Mas teve reuniões com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a quem apelou por baterias na geração renovável, e com Magda Chambriard, presidente da Petrobras, companhia sócia em projetos de produção de petróleo do pré-sal.

Pouyanné diz que em 2025 a operação brasileira será a primeira da empresa em fluxo de caixa e afirma estar pronto para tomar mais riscos, tanto nos fósseis quanto em renováveis. A seguir, os melhores trechos da conversa:

Petroleiras frearam o ritmo de investimentos em energia renovável, mas a TotalEnergies tem mantido, por quê?

Estabelecemos uma estratégia em 2020 com dois pilares: óleo e gás e eletricidade. Ao contrário de alguns dos meus colegas, nós continuamos a desenvolver, investir e expandir a energia do petróleo. Em GNL somos a terceira maior empresa do mundo. Nunca dissemos que reduziríamos esse negócio como os outros disseram. Porque esse é o nosso ganha-pão. Depois, no segundo pilar, cerca de 70% dos elétrons que geramos são renováveis, mas também vêm a partir do gás. Porque a energia renovável é intermitente e o cliente não quer isso. Ele quer energia confiável 24 horas por dia, 7 dias por semana. Com esse mix ganhamos mais dinheiro.

Mais lucrativo...

Em 2024, tínhamos cerca de US$ 20 bilhões em ativos (de eletricidade integrada) e lucramos US$ 2,5 bilhões, rentabilidade superior a 10%. Em 2025, o negócio de eletricidade será 10% do negócio de petróleo e gás, o que é significativo. Portanto, temos uma estratégia clara, que estamos tornando lucrativa. Não vejo porque mudar. Em energia, é muito importante manter o ritmo (do investimento). Amamos óleo e gás e gostamos de eletricidade. Vamos manter assim porque investimos a longo prazo.
O presidente da Shell no Brasil já disse que a última gota de petróleo da empresa sairá daqui. Isso vale para vocês?

Acho que não (risos). Talvez (a última gota) seja de Abu Dhabi para nós. Vejo mais 40 ou 50 anos de operação em Abu Dhabi. No Brasil a operação é em águas profundas. É enorme e temos orgulho disso. Algo que surpreendeu muito os investidores é que, em 2025, o país número um do portfólio em termos de fluxo de caixa será o Brasil. Mas em águas profundas você produz e tem um declínio mais acentuado. Não é como na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, onde há um longo platô de produção. Por isso, sou mais cauteloso (sobre essa última gota).

Quais são os próximos passos da operação de O&G no Brasil?

Discuti isso com a Magda Chambriard. Hoje estamos desenvolvendo muitos ativos paralelamente (nos campos de) Mero, Sépia e Atapu. Mas devemos pensar no que vem a seguir. E voltamos para a exploração e tecnologia. Na exploração ainda há coisas a descobrir. Esse ano vamos perfurar um poço interessante com a Petrobras no verão, Água Marinha. E na tecnologia, o que acontece no Brasil é que tem muito petróleo e gás associado a muito CO2. Encontramos petróleo com 30% de CO2, 20% de CO2. E o CO2 não é muito bom. Não é ruim apenas para o planeta. Também é ruim em termos de corrosão de metais. Altos teores de CO2 exigem metais muito caros para transporte do produto. E esse é um dos tópicos em que devemos trabalhar juntos. Se conseguirmos encontrar as tecnologias certas, poderemos ter um futuro muito longo no Brasil e aí, talvez, o meu colega da Shell esteja certo (risos).
O portfólio de O&G no Brasil está concentrado no pré-sal da Bacia de Santos. Cogita expandir para além do pré-sal?

Estou pressionando minha equipe de exploração, claro. O Brasil é importante. Temos 250 pessoas aqui espalhadas em algumas equipes de exploração, todas revisando oportunidades. Obtivemos algumas licenças para o Sul da Bacia de Santos no passado e temos algumas sísmicas, perfuramos na Bacia de Pelotas, mas do lado uruguaio. Então estamos olhando para isso. E há duas novas rodadas (leilões) chegando em 2025.

A TotalEnergies vai participar dos próximos leilões de área?

Na rodada de partilha da produção tenho certeza de que participaremos. Vi alguns itens e minhas equipes estão motivadas. Então iremos. Na outra, de concessão, eu não sei. Ainda preciso discutir com eles. O Brasil é importante e isso está claro. Na minha cabeça não há limite para investir no Brasil. Então é uma questão de oportunidade técnica. Confio nos meus geólogos e, se eles estão dispostos a explorar, nós nunca cortamos o orçamento de exploração. Desde que sou CEO, estamos gastando cerca de US$ 1 bilhão por ano com exploração e mantenho esse orçamento.

Quais são os planos para a operação no pré-sal?

Estamos discutindo isso com a Petrobras. Mero é enorme. Desenvolvemos todo o seu Oeste. No início, perfuramos o Leste, que foi decepcionante. Então decidimos nos concentrar na parte ocidental, mais prolífica. Mas houve uma iniciativa muito boa do governo, uma lei recente, que nos permite estender os contratos de partilha. Isso muda muito as coisas. Teremos tempo suficiente e aí, talvez, a gente deva olhar para Mero Central e outras áreas que têm hidrocarbonetos. O que estava limitando nossos esforços de avaliação de exploração era a duração dos contratos.
Por que não têm uma grande operação de gás no Brasil?

Eu gostaria de ter, mas o problema é que todo gás que encontramos no Brasil tem muito CO2. Fizemos duas grandes descobertas no ano passado, Ubaia e Marolo (no bloco C-M-541), muito grandes. Mas têm entre 20% e 30% de CO2, e isso dificulta. Por isso falo de tecnologia. Para gás no Brasil, temos de ser criativos, inovadores. Precisamos desenvolver mais captura de carbono, armazenamento? Não sei. Com a Petrobras lançamos um projeto de US$ 1,5 bilhão, o Hisep, que separa o CO2 no fundo do mar e não o leva para o FPSO. Quando as pessoas falam em P&D, isso é P&D grande, que não tem em lugar nenhum do mundo. Se conseguirmos reinjetar CO2 no reservatório sem levá-lo à superfície, resolveremos parte do problema. Então acredito que a resposta para desenvolver mais gás no Brasil é tecnologia.
O sr. disse, em setembro, que havia discussões comerciais para exploração na África com a Petrobras. Como está isso?

Petrobras se juntou a nós com participação de 10% em uma licença de exploração na África do Sul, próxima à fronteira com a Namíbia, no que chamamos de Bacia do Orange. Faremos essa campanha no ano que vem.

E na Namíbia?

Na Namíbia temos apenas duas licenças e já temos alguns parceiros. Então não vejo como, é uma questão de porcentagem. Mas estamos discutindo sobre outros países africanos (com a Petrobras). Magda está interessada em exploração. Então, como gostamos de desenvolver nossa parceria com a Petrobras, guardo isso em mente e, se tivermos oportunidades em outros países... Eles (Petrobras) têm boa expertise, conhecem a Bacia do Atlântico e nós somos fortes em Angola, por exemplo. Há um bom apetite da Petrobras, então, se virmos oportunidades, vamos propor a eles uma parceria, claro.
Em renováveis, o sr. fala muito em soluções integradas. Isso vale para o Brasil?

Sim. Estamos olhando para isso. Integração significa atuar em toda a cadeia: produzir eletricidade a partir de fontes renováveis ou plantas de gás, fazer a comercialização, ir até os clientes para fechar contratos. É o que fazemos no Brasil. Em breve devemos investir em baterias no Brasil, porque elas são úteis quando você tem muito vento para armazenar e depois entregar. Não temos usinas a gás por enquanto no Brasil, mas talvez tenhamos um dia. O mesmo vale para hidrelétricas. Estamos abertos. Porque o caminho para ganhar dinheiro é olhar para o diferente, estar presente ao longo da cadeia. No final talvez você ganhe alguns clientes, perca outros, mas é importante estar presente ao longo da cadeia. E aí se você não tem todos esses ativos, fica difícil ganhar dinheiro.
Como será esse investimento em baterias?

Ainda não fazemos isso aqui, mas acho que é o próximo passo. Pretendo tratar disso com o ministro de Minas e Energia (Alexandre Silveira) e estamos dispostos a discutir com os reguladores para estabelecer um bom caminho. É preciso encontrar uma maneira de incentivar a colocação de baterias, porque quando se coloca muita energia renovável na rede há um problema de estabilidade que leva a curtailments (cortes compulsórios na geração), que já são um problema no Brasil. Com as baterias, você resolve isso. É o que já fazemos na Alemanha, na Espanha e nos EUA. Então só uma questão de trazer essa experiência para o Brasil. Espero que não demore muito, porque significaria perda de dinheiro e os cortes já são prejudiciais a todos. Quero ser o primeiro a instalar baterias no Brasil.

Curtailment (corte compulsório) e preços baixos de energia são um problema para a estratégia no Brasil?

Por isso mencionei baterias. Os preços baixos estão aí. O que é difícil no Brasil é que você concorre com hidrelétricas que, em alguns anos, estão muito fortes e então os preços caem. Mas ao longo dos anos, você tem secas e os preços sobem. A estratégia é combinar PPAs (contratos de longo prazo) com clientes para garantir receitas. Mas estamos prontos para assumir mais riscos, e essa é uma discussão que temos com a Casa dos Ventos (TotalEnergies tem 34% da Casa dos Ventos). Por exemplo, ter um portfólio global, que poderia ser entre 70% e 80% coberto por PPAs e 20% ou 30% no mercado (livre). Porque gostamos disso e sabemos que podemos resistir. E aí, novamente, se pudéssemos ter algumas baterias no sistema, isso ajudaria a gerenciar os riscos.

O Estado de S.Paulo - SP   24/03/2025

O advogado da União Artur Watt Neto, indicado pelo governo Lula para ser diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), já defendeu acionar a Justiça “em último caso” para fazer a Petrobras cumprir a responsabilidade de cuidar de poços de petróleo abandonados pela empresa. O parecer de Watt Neto foi citado em um processo interno da ANP no ano passado envolvendo a Petrobras. No momento, a empresa tenta obter a licença para explorar petróleo na Margem Equatorial, na Foz do Amazonas.

Procurado pela Coluna do Estadão, Artur Watt Neto não comentou. Procurada, a ANP reforçou o entendimento de sua diretoria de que a Justiça só deve ser acionada depois que o caso se esgotar na seara administrativa e a empresa não cumprir a decisão da agência.

Em 2022, quando era subprocurador-geral da ANP, Watt Neto afirmou em um parecer que, de maneira geral, empresas que abandonem um poço de petróleo sem tomar ações de reparação ambiental devem ser processadas judicialmente como última opção.

“O recurso ao Judiciário deve ser feito apenas em último caso, tanto diante dos seus custos, como sua conhecida demora na resolução definitiva do litígio, além do risco de prevalecimento de tese distinta da defendida pela agência”, afirmou, completando: “Apesar de amplas discussões com a Petrobras, ainda é recomendável uma última tentativa de resolução administrativa”.

No caso específico, a Petrobras tentava se eximir de responsabilidade pelo abandono de poços explorados antes da criação da ANP, em 1997, os chamados “poços órfãos”. Em um julgamento no mês passado, a ANP reforçou que a Petrobras tem a obrigação de recuperar o meio ambiente afetado com o abandono desses poços, e que a ANP pode exigir a medida.

O Senado ainda não marcou a sabatina de Watt Neto. Solicitada por parlamentares do PSD, como o senador Otto Alencar (PSD-BA), a indicação do governo foi enviada à Casa em dezembro passado.

Supremo Tribunal Federal - DF   24/03/2025

O Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para o dia 14/4, às 14h, a próxima audiência de conciliação no processo em que se discute a competência regulatória referente ao Gasoduto Subida da Serra, em São Paulo (SP). A questão é objeto da Ação Cível Originária (ACO) 3688, de relatoria do ministro Edson Fachin.

A data foi designada na audiência de conciliação realizada na última quarta-feira (19) no STF. Após o avanço nas negociações, foi considerada a necessidade de realizar novas reuniões técnicas, além de mais uma audiência de conciliação.

Estiveram presentes representantes da Procuradoria-Geral da República (PGR), do Estado de São Paulo, da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Também estavam representados a União, pela Advocacia-Geral da União (AGU), o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Companhia de Gás de São Paulo (Comgás).

Na audiência, a ANP, o Estado de São Paulo e a Arsesp apresentaram propostas. A Comgás discutiu os impactos do gasoduto na segurança do abastecimento e a importância de um alinhamento entre os entes estadual e federal. Em seguida, as partes debateram sobre pontos de consenso e discordância.

A audiência foi conduzida pela juíza auxiliar da Presidência e responsável pelo Núcleo de Solução Consensual de Conflitos (Nusol), Trícia Navarro.

RODOVIÁRIO

Diário do Aço - MG   24/03/2025

A nova licitação do projeto de engenharia do contorno rodoviário da LMG-760, também chamado de contorno de Timóteo, deve ser publicada no segundo semestre deste ano, conforme expectativa do Departamento de Estrada e Rodagem de Minas Gerais (DER-MG). O Diário do Aço apurou junto à autarquia estadual que, no momento, os técnicos do DER finalizam junto ao município de Timóteo os ajustes no traçado que deverá ser contemplado no projeto.

“É uma obra importantíssima que vai tirar o trânsito da área central da cidade, caminhões pesados, inclusive. Foi contratada uma construtora, que rompeu o contrato, e nós, neste momento, estamos fazendo uma nova licitação”, afirmou o governador Romeu Zema (Novo), em entrevista coletiva em Ipatinga nesta sexta-feira (21).

Novas reuniões
Dia 19/3, representantes da administração municipal de Timóteo se reuniram com lideranças interessadas em tirar o projeto do papel, no clube Campestre, conforme noticiado pelo Diário do Aço.

Outros encontros devem ser promovidos e o diálogo com o governo do Estado permanecerá na pauta de discussões. “Esse contorno estará localizado em Timóteo, mas vai beneficiar toda a região. Assim que estiver pronto, vai dar muito mais agilidade e segurança ao escoamento das produções do Vale do Aço, por isso, precisamos nos unir e tornar essa interlocução com o Estado mais forte”, afirmou Vitor Prado (Republicanos), prefeito de Timóteo.

Projeto
O projeto do Contorno Rodoviário pretende ligar a LMG-760 à BR-381 com o objetivo de desviar o tráfego de veículos pesados do perímetro urbano na sede da cidade.

Desta forma, o trânsito para veículos de cargas seria desviado para os bairros Licuri, Alphaville e Limoeiro, a partir do distrito de Cava Grande, em Marliéria.

Proibição no trânsito
A circulação de veículos de carga foi restringida ao peso bruto total acima de 23 toneladas na cidade. Essa vedação do tráfego teve como justificativa os impactos negativos na malha viária do município após a conclusão das obras de pavimentação da rodovia MG-760, que interliga as BRs 381 e 262.

O trânsito de veículos pesados, sobretudo os articulados, longos e com excesso lateral, sobrecarregou o perímetro urbano de Timóteo, haja vista que as vias internas da cidade não foram dimensionadas para receber essa demanda, especialmente na avenida Acesita, no bairro Ana Rita, onde existe um gabião na encosta do bairro Bela Vista.

A íntegra da nota do DER

“Em relação ao contrato para a elaboração do projeto de engenharia para o Contorno de Timóteo, houve no início de 2025 um acordo entre o DER-MG e a empresa contratada (Engemaster) para encerramento das atividades, em decorrência de dificuldades executivas encontradas no traçado inicialmente previsto. O Departamento está trabalhando em um novo edital de licitação para contratação de empresa que vai elaborar o projeto de engenharia do Contorno de Timóteo, sendo que no momento nossos técnicos estão finalizando com o município de Timóteo os ajustes no traçado que deverá ser contemplado no projeto. A previsão do DER-MG é de que a licitação ocorra no início do segundo semestre de 2025”.

Já publicado:
- Encontro reúne autoridades políticas para discutir contorno rodoviário em Timóteo
- Administração de Timóteo fará reunião nesta semana sobre o contorno da LMG-760
- Projeto de obra do contorno rodoviário de Timóteo está parado
- Novo decreto que limita peso de veículos de carga entra em vigor nesta segunda-feira em Timóteo
- Projeto do contorno rodoviário de Timóteo deve ser entregue no fim deste ano
- Blitz de trânsito em Timóteo alerta motoristas sobre a restrição de tráfego de veículos pesados
- Empresa é contratada para elaborar o projeto de engenharia do Contorno de Timóteo

AGRÍCOLA

Revista Manutenção e Tecnologia - SP   24/03/2025

Buscando revolucionar o mercado de máquinas agrícolas, contribuindo para a descarbonização da agricultura, a Case IH apresenta o seu projeto de máquinas movidas a etanol. O primeiro passo para essa transformação veio com os testes em campo da primeira colhedora de cana movida a etanol.

“A Case IH tem investido há anos em propulsores alternativos, e vimos que o etanol é a melhor solução, principalmente para o Brasil, e por diversos fatores: é um combustível produzido por nossos clientes e amplamente utilizado no país, e que não demanda novos investimentos em infraestrutura e logística por parte dos produtores”, explica Christian Gonzalez, vice-presidente da Case IH para América Latina.

A primeira fase do projeto foi apresentada durante a Agrishow 2024, momento em que a marca anunciou e expôs o protótipo do motor movido a etanol para colhedoras de cana. Desenvolvido pela FPT Industrial, o propulsor é um Cursor 13 e seu grande diferencial é ser Ciclo Otto, o mesmo utilizado em carros flex.

O motor seguiu então para testes de bancada durante o restante do ano e foi introduzido em uma colhedora de duas linhas da série Austoft 9000 para ser levado para o campo.

Os primeiros testes foram realizados, no final de 2024, em uma das unidades da São Martinho, localizada em Pradópolis (SP), parceira histórica da marca no desenvolvimento de soluções para o setor.

Os resultados foram positivos e a máquina voltará a campo no início da próxima colheita. “Já nesse primeiro teste a colhedora teve excelente performance, conseguindo trabalhar em níveis similares de produtividade e eficiência que a versão a diesel, mesmo em canas de alta produtividade. Testamos outras versões e tecnologias no passado, mas não obtivemos os resultados promissores dessa versão. Durante essa safra continuaremos a testar e desenvolver o motor para chegar ao seu máximo potencial, e, em paralelo, iniciaremos o desenvolvimento em outras classes de motores e produtos”, comenta Gonzalez.

Para Fábio Venturelli, CEO da São Martinho, o projeto pode transformar não apenas o setor sucroalcooleiro. “Acreditamos que tem potencial de ser uma transformação significativa no aspecto de pegada de carbono não apenas para o nosso setor, mas para toda a agricultura”, enfatiza.

O uso de etanol como uma possibilidade de abastecimento de máquinas agrícolas traz diversos benefícios. É um combustível renovável e que reduz a emissão de carbono, fatores que contribuem para as metas ambientais e regulatórias do meio agrícola, como o mercado de CBIOS (créditos de descarbonização).

Estudos mostram que, quando se é analisado o ciclo de vida completo dos combustíveis, o etanol proporciona uma redução de até 90% na emissão de gases de efeito estufa (GEE) em relação aos combustíveis fósseis. Além disso, pode trazer redução de custos operacionais com transporte e logística e ter menos oscilações de preços, em relação aos derivados do petróleo.

A Case IH, comentra Gonzalez, aposta e acredita que o futuro das máquinas agrícolas é o etanol, um combustível sustentável, de fácil investimento por parte do produtor rural e que o Brasil é um dos grandes produtores. Por isso, afirma, a colhedora de cana é o início de um projeto que contará com um portfólio de máquinas movidas pelo combustível.

“Faz todo sentido iniciarmos o projeto atendendo o setor de cana, contribuindo para que tenham um ciclo autossuficiente dentro da própria usina. Mas o etanol produzido a partir do milho está crescendo bastante, e em regiões com alta demanda de máquinas agrícolas como o Centro-Oeste e a região conhecida como MATOPIBA. Então acreditamos que teremos uma alta demanda também do setor de grãos e nosso objetivo é oferecer outras opções de máquinas movidas a etanol como tratores, colheitadeiras e pulverizadores”, conclui o vice-presidente.

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